{"id":99293,"date":"2025-10-06T03:43:15","date_gmt":"2025-10-06T03:43:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/99293\/"},"modified":"2025-10-06T03:43:15","modified_gmt":"2025-10-06T03:43:15","slug":"filosofo-escreveu-o-melhor-livro-para-pensar-tecnologia-05-10-2025-ronaldo-lemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/99293\/","title":{"rendered":"Fil\u00f3sofo escreveu o melhor livro para pensar tecnologia &#8211; 05\/10\/2025 &#8211; Ronaldo Lemos"},"content":{"rendered":"<p>Um dos livros mais importantes sobre <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/tecnologia\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">tecnologia<\/a> nos \u00faltimos anos foi escrito por um fil\u00f3sofo. Trata-se de &#8220;Post-Europe&#8221; (P\u00f3s-<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/europa\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Europa<\/a>), de Yuk Hui, publicado pela MIT Press.<\/p>\n<p>O argumento \u00e9 simples e arrebatador. O planeta inteiro foi capturado pela l\u00f3gica europeia: o culto \u00e0 raz\u00e3o, \u00e0 tecnologia e ao progresso. O p\u00f3s-Europa \u00e9 na verdade o triunfo das ideias europeias.<\/p>\n<p>S\u00f3 que esse projeto chegou agora ao limite. A Europa n\u00e3o \u00e9 mais centro do mundo. Em outras palavras, quem escreveu o &#8220;software&#8221; do mundo contempor\u00e2neo n\u00e3o mais o controla. O bast\u00e3o foi passado para os EUA, que virou a concretiza\u00e7\u00e3o hipertecnol\u00f3gica do pensamento europeu, expandindo seu &#8220;logos&#8221; e &#8220;techn\u0113&#8221; para o mundo todo.<\/p>\n<p>Yuk chama isso de planetariza\u00e7\u00e3o: a expans\u00e3o total da racionalidade t\u00e9cnica, da economia e do modo de vida gerado pela modernidade europeia. Inspirado em Heidegger, ele descreve essa situa\u00e7\u00e3o como &#8220;Heimatlosigkeit&#8221;, a perda da casa. Em outras palavras, todos n\u00f3s, incluindo a Europa, nos tornamos desabrigados nesse mundo p\u00f3s-europeu.<\/p>\n<p>Hui dialoga com v\u00e1rios pensadores como o checo Jan Pato\u010dka e o franc\u00eas Bernard Stiegler. O primeiro observa que, ap\u00f3s a Segunda Guerra, a Europa entrou em um momento em que a civiliza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica eclipsou o &#8220;cuidado com a alma&#8221;. Sua resposta \u00e9 nost\u00e1lgica: reviver o ideal grego de &#8220;bem-viver&#8221; refor\u00e7ando valores humanistas.<\/p>\n<p>J\u00e1 Stiegler refuta essa nostalgia propondo um confronto direto com a tecnologia. Enxergando-a tanto como amea\u00e7a como poss\u00edvel for\u00e7a de reden\u00e7\u00e3o, caso seja reorientada.<\/p>\n<p>    Colunas<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o de colunas da Folha<\/p>\n<p>Hui usa essas duas vis\u00f5es para mostrar que a pr\u00f3pria filosofia europeia previu sua exaust\u00e3o. O resultado do pensamento europeu foi de fato a hegemonia das m\u00e1quinas, dos algoritmos e do consumo.<\/p>\n<p>Hui analisa como responder a isso. Sua proposta \u00e9 decisiva: aceitar o estado de desabrigo universal como ponto de partida. Em vez de sonhar com reconstruir uma &#8220;Europa&#8221; do passado, a quest\u00e3o \u00e9 pensar em termos p\u00f3s-europeus.<\/p>\n<p>O que \u00e9 a \u00c1sia nesse contexto? Hui mostra como essa pergunta em si deriva da vis\u00e3o europeia sobre o continente. A \u00c1sia n\u00e3o deve ser vista como &#8220;ser&#8221;, mas como um processo, uma oportunidade de &#8220;individua\u00e7\u00e3o&#8221;, onde o choque com a tradi\u00e7\u00e3o europeia permite por vezes sua supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como exemplo, ele cita autores como Nishida Kitaro, no Jap\u00e3o, e o interessant\u00edssimo Mou Zongsan, da China (autor da frase: &#8220;O cora\u00e7\u00e3o abre duas portas: do fen\u00f4meno e do n\u00fameno&#8221;). Ambos compreenderam o pensamento ocidental em profundidade, mas articularam com ele cosmologias pr\u00f3prias. Fizeram o que n\u00f3s brasileiros chamamos de &#8220;antropofagia&#8221;: deglutir o europeu para produzir o novo.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia do pensamento de Hui \u00e9 que pa\u00edses como Brasil e \u00cdndia t\u00eam a responsabilidade de atuar como laborat\u00f3rio de respostas para o desabrigo p\u00f3s-europeu. Somos, sim, parte Europa, mas n\u00e3o podemos de jeito nenhum nos deixar subsumir a ela.<\/p>\n<p>A proposta de Hui \u00e9 sair da tenta\u00e7\u00e3o de perguntar &#8220;o que \u00e9?&#8221; para perguntar &#8220;o que fazer?&#8221;, lema dessa coluna.<\/p>\n<p>Talvez esse seja o maior m\u00e9rito do livro: lembrar que a tarefa filos\u00f3fica do nosso tempo \u00e9 aprender como habitar o ex\u00edlio.<\/p>\n<p>J\u00e1 era \u2013 produzir novelas s\u00f3 em formato horizontal<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 \u2013 produzir novelas em formato vertical<\/p>\n<p>J\u00e1 vem \u2013 novelas tanto verticais como horizontais produzidas por IA, sem est\u00fadios e dispensando boa parte dos redatores<\/p>\n<p class=\"c-context__content\">&#13;<br \/>\n    <strong>LINK PRESENTE:<\/strong> Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. 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