{"id":99430,"date":"2025-10-06T08:27:07","date_gmt":"2025-10-06T08:27:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/99430\/"},"modified":"2025-10-06T08:27:07","modified_gmt":"2025-10-06T08:27:07","slug":"crise-climatica-e-misterio-literario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/99430\/","title":{"rendered":"Crise Clim\u00e1tica e Mist\u00e9rio Liter\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>O mais recente romance Ian McEwan tem andado pelas bocas do mundo como h\u00e1 algum tempo n\u00e3o acontecia a nenhum outro livro \u2018s\u00e9rio\u2019. <strong>A concorr\u00eancia com o lixo liter\u00e1rio ainda n\u00e3o toldou todos os cr\u00edticos e raro tem sido o jornal, revista e plataforma que n\u00e3o tem dado destaque a\u00a0<\/strong><strong>O Que Podemos Saber<\/strong><strong>.<\/strong> Ao folhear-se as p\u00e1ginas de cultura de v\u00e1rias publica\u00e7\u00f5es internacionais <strong>h\u00e1 um t\u00edtulo que se destaca e que resume perfeitamente o livro, o da\u00a0<\/strong><strong>The New Yorker<\/strong><strong>: \u201c<\/strong><strong>Ian McEwan retrata a Crise Clim\u00e1tica como uma Hist\u00f3ria de Adult\u00e9rio<\/strong><strong>\u201d. \u00c9 o mais acertado resumo para as 446 p\u00e1ginas<\/strong>, que s\u00f3 se torna definitivamente compreens\u00edvel l\u00e1 para o fim, e que se diferencia de qualquer outro t\u00edtulo de todas as outras publica\u00e7\u00f5es, as que fazem pensar ao leitor que Ian McEwan vai estar preocupado com o fim do mundo como o conhecemos devido \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, aos conflitos b\u00e9licos e outras situa\u00e7\u00f5es como as que temos presenciado neste terceiro mil\u00e9nio.<\/p>\n<p><strong>Quase a meio do romance, McEwan introduz a realidade: a pandemia de covid-19, a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia em 2022 e a introdu\u00e7\u00e3o dos drones numa guerra que deixa de ser tradicional.<\/strong> A par de uma vis\u00e3o do presente, McEwan introduz poss\u00edveis conflitos que n\u00e3o estar\u00e3o assim t\u00e3o distantes do que ainda poder\u00e1 vir a ser uma realidade: uma guerra clim\u00e1tica entre a \u00cdndia e o Paquist\u00e3o, bem como a uni\u00e3o de esfor\u00e7os entre a Ar\u00e1bia Saudita e Israel para invadir o Ir\u00e3o e impedir que este tenha as suas bombas at\u00f3micas, al\u00e9m do afundamento de um porta-avi\u00f5es norte-americano no Estreito de Taiwan pela China\u2026 N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ser um vision\u00e1rio nem autor de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para antecipar certos cen\u00e1rios que, tendo muito a ver com o presente, se tornam mais entend\u00edveis para os leitores atuais. \u00a0<\/p>\n<p>Antes de o leitor se aproximar do meio do livro, o cen\u00e1rio e o tempo cronol\u00f3gico \u00e9 outro. Estamos em 2014, com a reconstru\u00e7\u00e3o de acontecimentos que andam um pouco para tr\u00e1s e para a frente, de forma que Ian McEwan comece a edificar a hist\u00f3ria que quer contar. Que se resume a dois palcos: <strong>um jantar memor\u00e1vel em casa do poeta Blundy para comemorar o anivers\u00e1rio da mulher, Vivien; a oferta de um poema especial que o poeta faz para a mulher e que fica, de forma m\u00edtica, como o expoente da sua capacidade liter\u00e1ria.<\/strong><\/p>\n<p>A partir desse momento h\u00e1 uma persegui\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que atravessa todo o romance: onde est\u00e1 o original do poema? Foi impresso num livro do poeta? Algu\u00e9m \u00e9 capaz de o refazer? Ser\u00e1 algum dia lido pelos descendentes da humanidade daquele in\u00edcio do s\u00e9culo XXI?\u00a0<strong>O Que Podemos Saber\u00a0<\/strong><strong>\u00e9 o relato de todos os esfor\u00e7os para descobrir a localiza\u00e7\u00e3o de uma obra inexced\u00edvel e que, num del\u00edrio muito bem imaginado, poderia at\u00e9 ser a explica\u00e7\u00e3o para as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas que transformaram o planeta Terra na segunda \u00e9poca da a\u00e7\u00e3o: em 2119.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o vale a pena sugerir que Ian McEwan faz quest\u00e3o de exibir neste romance toda a sua evolu\u00e7\u00e3o, rigor e imagina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u2013 \u00e9 um empenho bem vis\u00edvel &#8211; na elabora\u00e7\u00e3o de uma <strong>narrativa que exige do leitor um esfor\u00e7o razo\u00e1vel para o acompanhar e, principalmente, entender as duas vozes principais.<\/strong> Cap\u00edtulo ap\u00f3s cap\u00edtulo, McEwan vai cozendo uma teia de fios com v\u00e1rios personagens que acrescentam detalhes ao mist\u00e9rio do poema desaparecido, uns que d\u00e3o esperan\u00e7a de que ser\u00e1 encontrado e outros que demonstram que tal nunca acontecer\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Se o espa\u00e7o temporal em que \u00e9 constru\u00edda a narrativa \u00e9 longo, h\u00e1 algo que faz lembrar um dos seus romances mais premiados, o\u00a0<\/strong><strong>Expia\u00e7\u00e3o<\/strong><strong>, que h\u00e1 24 anos se estendia por tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es<\/strong>, tamb\u00e9m questionava a literatura e tentava solucionar um outro mist\u00e9rio. Ian McEwan reconhece essa semelhan\u00e7a com o anterior livro e j\u00e1 se referiu ao mais recente como resultado de \u201cuma boa parte da minha ambi\u00e7\u00e3o neste romance era colocar em di\u00e1logo o passado, o presente e o futuro.\u201d <strong>Para realizar o seu desejo, McEwan partiu de um poema de John Fuller,\u00a0<\/strong><strong>Maarston Meadows: uma Coroa para Prue<\/strong><strong>, que descobriu h\u00e1 alguns anos e que tem a particularidade de ser composto por quinze sonetos, sendo que o \u00faltimo verso de cada um \u00e9 igual ao que come\u00e7a o soneto seguinte.<\/strong><\/p>\n<p>Se se desejar tentar fazer um t\u00edtulo a imitar o da\u00a0The New Yorker,\u00a0\u201cIan McEwan retrata a Crise Clim\u00e1tica como uma Hist\u00f3ria de Adult\u00e9rio\u201d pode-se tentar, mesmo que seja imposs\u00edvel sem destruir todo o mist\u00e9rio \u2013 e um enorme marketing &#8211; deste novo romance. At\u00e9 porque <strong>em nenhum momento o leitor espera que Ian McEwan ao fim de centenas de p\u00e1ginas desfa\u00e7a o mist\u00e9rio apenas nas \u00faltimas cinco linhas de romance.<\/strong> Ou seja, com um posicionamento de extrema destreza liter\u00e1ria, com recursos a uma linguagem que poucos hoje conseguem fazer ou manter, com um ziguezague intelectual impar\u00e1vel \u2013 muitas vezes at\u00e9 parece que deseja vencer a aposta de ser o maior escritor da sua gera\u00e7\u00e3o, onde Martin Amis j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um desafio, Julian Barnes j\u00e1 se ressente e Salman Rushdie rendeu-se perante a viol\u00eancia f\u00edsica que atrai \u2013 e est\u00e1 noutra categoria. Pela certa estar\u00e1, afina<strong>l escrever um poderoso \u201cpolicial filos\u00f3fico\u201d n\u00e3o \u00e9 para todos.<\/strong> At\u00e9 poderia ficar por aqui, fazer desta a sua \u00faltima obra, se n\u00e3o tivesse outras ambi\u00e7\u00f5es confessadas em\u00a0O Que Podemos Saber.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O mais recente romance Ian McEwan tem andado pelas bocas do mundo como h\u00e1 algum tempo n\u00e3o acontecia&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":99431,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,306,114,115,170,8467,32,33],"class_list":{"0":"post-99430","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-edicao-impressa","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-livros","13":"tag-livros-da-semana","14":"tag-portugal","15":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99430","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=99430"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99430\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/99431"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=99430"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=99430"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=99430"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}