{"id":99452,"date":"2025-10-06T08:55:33","date_gmt":"2025-10-06T08:55:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/99452\/"},"modified":"2025-10-06T08:55:33","modified_gmt":"2025-10-06T08:55:33","slug":"annie-ernaux-expoe-fissuras-em-memoria-de-menina-05-10-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/99452\/","title":{"rendered":"Annie Ernaux exp\u00f5e fissuras em &#8216;Mem\u00f3ria de Menina&#8217; &#8211; 05\/10\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Como sustentar a escrita quando cada palavra abre um confronto com o passado? &#8220;Mem\u00f3ria de Menina&#8221;, cuja escrita <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2022\/10\/cinco-livros-para-conhecer-annie-ernaux-vencedora-do-nobel-de-literatura.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Annie Ernaux<\/a> diz ter adiado por 50 anos, decide dissociar quem narra de quem \u00e9 narrado.<\/p>\n<p>Publicado originalmente em 2016, o livro sai agora no Brasil com tradu\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/walter-porto\/2023\/09\/tinta-da-china-contrata-editora-executiva-e-aposta-em-antifascismo-e-pessoa.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Mariana Delfini<\/a>. Na impossibilidade de resgatar a jovem de 18 anos que foi, a autora convoca Annie D., seu duplo correspondente, para narrar aquela jovem do ver\u00e3o de 1958.<\/p>\n<p>Em busca das palavras exatas, Ernaux apresenta o conflito que a pr\u00f3pria escrita gera nela. Para esquecer essa experi\u00eancia, seria necess\u00e1rio ter amn\u00e9sia em rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 de si, mas tamb\u00e9m do mundo \u2014ent\u00e3o ela escreve. Por isso, em certa altura do texto, indaga: &#8220;Ser\u00e1 que preciso fundir a menina de 58 e a mulher de 2014 num &#8216;eu&#8217;?&#8221;.<\/p>\n<p>O romance narra o primeiro ver\u00e3o que Annie Duschene passa longe de casa. &#8220;Eu a vejo chegando na col\u00f4nia como uma potra que fugiu do cercado, sozinha e livre pela primeira vez, um pouco receosa.&#8221;<\/p>\n<p>Foi l\u00e1 que ela teve sua primeira experi\u00eancia sexual. A cena \u00e9 retratada de forma brutal, mas na \u00e9poca n\u00e3o havia discuss\u00f5es sobre consentimento. \u00c9 nesse limiar da impossibilidade de resgatar a mem\u00f3ria que Ernaux, 50 anos depois, encontra coragem e faz da impossibilidade uma po\u00e9tica pr\u00f3pria. Mais do que um livro que se prop\u00f5e a construir imagens e uma cad\u00eancia l\u00f3gica, este \u00e9 um livro de sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No jogo de altern\u00e2ncia dos pronomes &#8220;eu&#8221; e &#8220;ela&#8221;, Ernaux lan\u00e7a d\u00favidas sobre a enuncia\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2024\/10\/autobiografia-e-a-literatura-mais-coletiva-diz-edouard-louis-estrela-da-flip.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">autobi\u00f3grafo<\/a>. &#8220;\u00c0 medida que sigo em frente, desaparece uma esp\u00e9cie de simplicidade anterior da narrativa guardada na minha <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2024\/05\/como-as-memorias-sao-armazenadas-em-nosso-cerebro.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">mem\u00f3ria<\/a>. [&#8230;] N\u00e3o estou construindo uma personagem de fic\u00e7\u00e3o. Estou desconstruindo a menina que fui.&#8221;<\/p>\n<p>A narradora com frequ\u00eancia revela o embate dessa escrita, mas tamb\u00e9m a urg\u00eancia de escrever sobre a menina de 1958. Afinal, ela \u00e9 a \u00fanica que se lembra e por isso insiste, pois n\u00e3o suporta a ideia de morrer sem ter escrito sobre ela.<\/p>\n<p>Annie D., filha \u00fanica, superprotegida e privada da liberdade, tem admira\u00e7\u00e3o por tudo que soa emancipado, moderno e na moda. Seu destino naquele ver\u00e3o era a col\u00f4nia S., para ser monitora, a 15 dias de completar 18 anos. Seu desejo naquele momento, al\u00e9m de se livrar da m\u00e3e, era viver uma hist\u00f3ria de amor.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, sua vida mais intensa acontecia nos livros que ela devorava. &#8220;Ela n\u00e3o tem um eu definido, mas alguns &#8216;eus&#8217; que v\u00e3o de um livro para o outro.&#8221;<\/p>\n<p>    Tudo a Ler<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o com lan\u00e7amentos, cl\u00e1ssicos e curiosidades liter\u00e1rias<\/p>\n<p>Na tentativa de reencontrar a sua linguagem, Ernaux se depara com a incapacidade de recompor o discurso anterior de Annie Duschene. Ent\u00e3o, resta captar fragmentos de cartas e di\u00e1rios da \u00e9poca, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 fotos desse per\u00edodo.<\/p>\n<p>Esse gesto nos leva a pensar sobre que corpo \u00e9 forjado a partir de uma escrita de si. O que aconteceu com Annie D. naquele ver\u00e3o \u00e9 algo que ainda reverbera na Annie que escreve, como se ao longo da leitura tiv\u00e9ssemos a reconstitui\u00e7\u00e3o deste corpo narrado, de forma fragmentada e incompleta.<\/p>\n<p>A corporeidade feminina \u00e9 apresentada de forma violada e cindida. Ora controlado pelos pais, pelas freiras e depois pelos homens, esse corpo se reconstr\u00f3i na escrita.<\/p>\n<p>Logo de in\u00edcio, a conviv\u00eancia com os meninos a desconcerta, tudo \u00e9 novo para ela. \u00c9 nesse per\u00edodo que realiza o sonho de ir a um bailinho, e \u00e9 l\u00e1 que ela conhece H., monitor-chefe pelo qual se apaixona.<\/p>\n<p>H. a convida para ir a um lugar mais reservado depois da dan\u00e7a. Ele a puxa violentamente e age r\u00e1pido demais. <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/annie-ernaux\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Ernaux<\/a> se questiona sobre o que pensou Annie D. naquela situa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 era tarde para voltar atr\u00e1s.<\/p>\n<p>A sequ\u00eancia se desenrola em uma s\u00e9rie de conflitos; ela \u00e9 julgada, fica deprimida e desenvolve <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/blogs\/nao-tem-cabimento\/2024\/10\/no-tratamento-da-bulimia-cada-dia-sem-vomitar-e-importante.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">bulimia<\/a>. Acompanhamos o despertar dela para quest\u00f5es de g\u00eanero. Ernaux converte v\u00e1rios tempos no presente; n\u00e3o s\u00f3 rememora o que aconteceu, mas tamb\u00e9m renomeia.<\/p>\n<p>Sua escrita tensiona o tempo todo a impossibilidade de recuperar exatamente o que aconteceu e tamb\u00e9m a necessidade de renomear acontecimentos que \u00e0 \u00e9poca n\u00e3o eram discutidos. &#8220;Ele est\u00e1 indo r\u00e1pido demais, ela n\u00e3o est\u00e1 pronta para tanta pressa, tanto entusiasmo.&#8221;<\/p>\n<p>Ernaux n\u00e3o escreve para reconstruir fielmente o passado, mas para expor suas fissuras. Nesse movimento de avan\u00e7o e retorno, transforma a impossibilidade em m\u00e9todo e a ferida em <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/literatura\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">literatura<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Como sustentar a escrita quando cada palavra abre um confronto com o passado? &#8220;Mem\u00f3ria de Menina&#8221;, cuja escrita&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":99453,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[3842,169,24352,114,115,236,864,170,3968,11311,32,10156,33],"class_list":{"0":"post-99452","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-annie-ernaux","9":"tag-books","10":"tag-editoria-de-livros","11":"tag-entertainment","12":"tag-entretenimento","13":"tag-folha","14":"tag-literatura","15":"tag-livros","16":"tag-mulher","17":"tag-nobel","18":"tag-portugal","19":"tag-premio-nobel","20":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99452","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=99452"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99452\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/99453"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=99452"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=99452"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=99452"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}