A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que oito em cada dez pessoas sentirão dor na coluna em algum momento da vida. Apesar de tão comum, esse sintoma ainda é frequentemente tratado como algo “normal” da idade ou da rotina de trabalho. Para especialistas, porém, trata-se de um importante sinal de alerta do corpo, e o modo de vida atual tem intensificado esse cenário.

É o que explica Rossano Paim, sócio diretor da Sou Coluna, clínica especializada em problemas na coluna vertebral. Ele reforça que a dor nas costas é apenas um sintoma, não o problema em si. Logo, tratar apenas a dor sem investigar sua origem é como desligar o alarme de incêndio sem apagar o fogo.

Os três pilares do problema

Segundo Paim, as causas das dores na coluna podem ser divididas em três pilares:

Química: ligada a hábitos como consumo frequente de álcool, cigarro e alimentação rica em ultraprocessados ou gorduras em excesso.

Física: relacionada à postura e ao tempo que se passa em posições ruins: muitas horas sentado, computador mal ajustado, celular usado sempre com a cabeça baixa.

Emocional: envolve estresse, ansiedade, rotina corrida, preocupação constante e privação de sono.

O ritmo acelerado da vida contemporânea tem sido um dos principais responsáveis pelo agravamento desse quadro. Conforme observa Rossano, a sociedade atual parece estar cada vez mais ansiosa, o que leva ao negligenciamento do cuidado com o próprio corpo, gerando uma cascata de problemas de saúde.

A situação se intensificou ainda mais após a pandemia, quando o home office deixou de ser uma possibilidade para se tornar a única opção para diversos trabalhadores. O problema, explica Paim, é que muitas pessoas não tinham a estrutura adequada para se adaptar ao novo modelo de trabalho, utilizando sofás, mesas de sala e notebooks sem suportes apropriados. “Isso, mantido por meses e anos, cobra um preço da coluna”, complementa.

Por isso, é fundamental adotar cuidados diários que vão além do mobiliário de estrutura. Para reduzir o impacto do trabalho sentado, Rossano indica alguns cuidados básicos. Confira:

deixar o monitor na altura dos olhos;

usar uma cadeira ajustada à altura do corpo;
manter os pés bem apoiados, sem ficarem soltos no ar;
se esforçar para fazer pequenas pausas ao longo do dia para levantar e se alongar.

No entanto, o que se observa na prática é bem diferente. Com a sobrecarga de demandas profissionais, essas pausas, por mais que sejam recomendadas, raramente acontecem. Fora do expediente, o uso excessivo do celular também mantém o corpo em posição de tensão.

“As pessoas ficam o dia inteiro com a cabeça para baixo olhando para o celular. A cada geração que passa, o celular é mais comum. Já vemos crianças pequenas com esse hábito, o que pode gerar problemas futuros”, alerta Paim.

Essa combinação de fatores cria o que especialistas chamam de “efeito cascata”: um problema que se intensifica progressivamente.

A dor como ponta do iceberg

Um dos enganos mais comuns é achar que dor nas costas é algo “natural” com o passar dos anos. Para Paim, na maioria dos casos, a dor é só o último sinal de um problema que começou bem antes.

“Muitas vezes, as pessoas só buscam tratamento quando a dor já está instalada. Mas o problema pode ter começado muito antes, de forma silenciosa”, explica.

A coluna vertebral desempenha papel fundamental no corpo humano, muito além da sustentação. O especialista esclarece que ela é responsável por proteger a medula, por onde passam as informações que o cérebro envia para os órgãos. Quando há desalinhamento, essa comunicação pode ser prejudicada.

Paim utiliza uma analogia para facilitar o entendimento: “É como um fio com mau contato. Se a coluna está desalinhada, pode estar inibindo a transmissão de informações para o estômago, por exemplo, gerando problemas digestivos que aparentemente não têm relação com a coluna”, explica.

Por que quase ninguém pensa em prevenção

Mesmo com tantos casos de dor, Rossano informa que a cultura de prevenção ainda não é tão consolidada no Brasil, fazendo com que a maioria das pessoas só procure ajuda quando a dor já está presente. “Os dentistas fizeram um bom trabalho educando a população sobre check-ups de seis em seis meses. Nosso objetivo é criar essa mesma consciência para a saúde da coluna”, afirma.

Ele lembra ainda que o cuidado deveria começar desde cedo. O parto, as quedas quando o bebê está aprendendo a andar e, até mesmo o uso precoce de telas já colocam algum nível de estresse sobre a coluna. “A prevenção deveria ser um hábito para a vida toda”, recomenda.

Ajustes simples que fazem diferença

Para quem quer começar a cuidar melhor da coluna, Paim sugere mudanças possíveis dentro da rotina:

➡️ beber água ao longo do dia, e não apenas em grandes quantidades de uma vez;
➡️ praticar atividade física com regularidade, seja musculação, esporte ou alongamentos orientados;
➡️ interromper períodos muito longos sentado, levantando-se para caminhar e se mexer;
➡️ cuidar do sono, tentando manter horários mais regulares e priorizando dormir de lado, com travesseiro e apoio entre os joelhos;
➡️ manter a consciência sobre a própria postura ao longo da rotina;
➡️ identificar o próprio limite para gerenciar o estresse e não se exigir além dos limites.

Além disso, o fortalecimento muscular é fundamental porque ajuda a manter a coluna alinhada por mais tempo. “É como uma academia para a estrutura do corpo”, explica.

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Quando é hora de procurar ajuda

A orientação é clara: dores frequentes nas costas não devem ser ignoradas. “A dor geralmente aparece por último. Às vezes o problema já existe, mas a pessoa ainda não sente dor devido à sua estrutura física. Quanto antes buscar avaliação, melhor”, orienta.

E faz um alerta importante: “Nosso corpo é nosso principal veículo. Se ele estragar, paramos. E a coluna não pode ser substituída. Por isso, cuidar dela não é opcional, é essencial”.