O cineasta e criador de conteúdo Pedro Gabriel Miziara, 27, começou a fazer terapia na adolescência. Foram quase oito anos com o mesmo psicólogo, entre algumas pausas, até o elo se romper de forma abrupta com a morte do profissional.
“Numa segunda-feira, toquei a campainha do consultório e ele não me atendeu. Isso aconteceu só uma outra vez em anos. Toquei de novo, não atendeu. Achei estranho. Fui para casa e mandei mensagem para a minha namorada na época, brincando: ‘acho que ele morreu’”, lembra.
Sem notícias, Miziara soube da morte ao entrar no perfil pessoal do terapeuta no Facebook, que sempre aparecia como sugestão. “Tinha uma foto dele em preto e branco e muitas pessoas lamentando a morte. Foi um susto”, conta.
A história de Miziara desperta para uma reflexão: quais são os impactos de perder um profissional em que depositamos tanta confiança, como um terapeuta? Essa resposta é individual, aponta a psicóloga Celina Daspett, coordenadora do Proalu (Programa de Acolhimento ao Luto), da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Porém, é comum que a ruptura leve ao luto, sobretudo em casos de mortes repentinas.
“Se o profissional tem uma doença, o protocolo é outro. Aí ele consegue se despedir dos pacientes, encaminhar para outros profissionais. Uma morte repentina é agravante do luto”, explica Daspett.
Dois processos aumentam o sofrimento em situações como a que Miziara. Primeiro, a falta de um ritual de despedida, como ir ao velório, que representa a concretização da morte. “Mortes sem o corpo são mais difíceis de serem elaboradas. É a chamada perda ambígua: você não sabe se essa pessoa morreu ou não. Algo que acontece com presos políticos e crianças desaparecidas”, diz Daspett.
E, segundo, a deslegitimação dessa tristeza por terceiros, colocando esse tipo de luto entre os não reconhecidos —um mecanismo semelhante ao que acontece após perdas gestacionais, por exemplo. Os principais efeitos diretos disso são a resistência em seguir a terapia e a dificuldade de se vincular a um novo profissional, diz a psicóloga.
Miziara conta que vivenciou ambos os processos. No dia seguinte à notícia, ele recebeu uma mensagem do número do terapeuta. Era o filho dele. Os dois conversaram por ligação e choraram. “Ele morreu na terça-feira anterior, um dia depois de me atender. Teve um infarto durante uma consulta”, diz.
O filho do psicólogo é psiquiatra e perguntou se ele precisava de suporte, ou da indicação de um novo terapeuta. O cineasta não quis recomeçar o processo, mesmo vivendo um momento vulnerável, de volta à terapia dois anos após ter alta.
“Foram anos nessa terapia. Eu cresci e o meu terapeuta virou quase uma figura paterna, que surgiu quando eu precisava disso, na minha puberdade, quando eu tentava entender a separação dos meus pais. Na sessão antes de ele falecer, ele disse que sentia orgulho de mim”, conta o cineasta.
Só no ano seguinte, em 2022, Miziara viu-se pronto a buscar outro psicólogo. “Mas me sentia traindo ele [o anterior], era como se eu estivesse viúvo e fosse entrar em um aplicativo de relacionamento para encontrar alguém”, diz. As sessões não seguiram.
Em 2023, em meio a uma crise, procurou ajuda. Fazer terapia online, uma novidade para ele, o ajudou. “Acho que isso foi importante, porque era outro ambiente, não um consultório. Era em casa. Comecei falando que fiz oito anos de terapia e meu terapeuta morreu.”
Trazer esse repertório para as sessões é essencial. É papel do novo psicólogo tratar o trauma da perda, se essa for uma demanda do paciente, orienta Daspett. Alguns rituais, mesmo que simples, ajudam a ressignificar o luto –como escrever uma carta ou simular uma conversa de despedida.
Hoje, dois anos após a retomada, Miziara encontrou um lugar para cada profissional. O novo terapeuta está no presente, e o antigo ecoa por meio do legado, e não de comparações.
Sem protocolo para psicólogos
Um estudo publicado nos EUA neste ano mostrou que 80% dos psicólogos temem que os pacientes não sejam avisados sobre sua morte. A negação sobre a própria finitude é um dos principais fatores que os impedem de criar condutas para esse momento.
“A gente não fala de morte. Se a gente pensar no imaginário social, a gente vive como se não fosse morrer, por mais que todos nós saibamos. Há uma negação”, diz Celina Daspett.
O CFP (Conselho Federal de Psicologia) afirma que não existe um protocolo de como os profissionais devem se preparar para a própria morte ou situações que os impeçam de exercer a profissão. A orientação é garantir a continuidade do vínculo com outro terapeuta e a confidencialidade das informações do paciente.
“Vínculo é algo muito fundamental na psicologia. Nenhum profissional tem a obrigação de comunicar as suas condições de saúde, isso em qualquer profissão. Mas é importante trabalhar a possibilidade de romper o vínculo e oferecer a chance de buscar outro profissional”, afirma Maria Carolina Roseiro, conselheira do CFP e doutora pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo).
Uma forma de evitar problemas é combinar como os pacientes podem acessar o próprio prontuário em casos extremos. “Mesmo que seja um acordo verbal, oriente como a pessoa pode ter acesso aos registros”, diz Roseiro. Afinal, ter o prontuário ajuda a recomeçar o processo terapêutico.
Outras opções são fazer um testamento profissional (que reúne instruções administrativas sobre o consultório e quais orientações dar aos pacientes) ou escolher um executor de prática (profissional que também terá função clínica, atendendo e fazendo prontuários).