De regresso do seu passeio habitual por Casais, Jaime Lopes entrou em casa para, já de pantufas calçadas, se aquecer junto ao lume num fim de manhã gelado nesta aldeia do concelho de Tomar. O som de cães a ladrar foi o primeiro alerta. Levantou-se para ver o que se passava — “normalmente é assim nas aldeias”, justifica — e viu uma mulher a correr rua abaixo. “Vinha a gritar e a pedir socorro”, descreve. A vizinha fugia do ex-namorado.

O antigo presidente da junta de Casais, que acorreu para ajudar a mulher britânica, apressou-se a ligar para o 112, ainda sem perceber, devido à barreira linguística, o que tinha acontecido. Só iria perceber quando, “passado poucochinho tempo”, chegaram os carros da GNR e dos bombeiros. O homem de 43 anos, um português que vivia em Tomar, tinha tirado a própria vida depois de matar o filho de 13 anos da antiga companheira e provocar uma explosão que a feriu e a um militar da GNR. “Fiquei de boca aberta quando soube disto”, admite uma moradora. “Ainda há dias vi o menino a andar de trotinete”, recorda.

Homem suspeito de matar rapaz de 13 anos e provocar explosão. Mãe da criança e militar da GNR feridos

Ao Observador, o Comandante do Destacamento Territorial de Tomar explica que o homem entrou ao final da manhã de terça-feira dentro de casa da ex-namorada de 43 anos e tentou agredi-la. A mulher conseguiu fugir, acabando a pedir ajuda aos vizinhos, mas o filho, de 13 anos, ainda estava no interior da habitação. O agressor terá atacado com uma arma branca o menor.

Alertadas pelos vizinhos da mulher britânica, chegaram ao local duas patrulhas da GNR, que estavam nas proximidades, com quatro elementos. Terá sido ao aperceber-se da chegada dos militares que o homem, com recurso a botijas de gás e a um isqueiro, provocou uma explosão, relata o major João Moderno.

Quando as autoridades entraram na casa, “tanto o presumível agressor como o menor apresentavam diversos ferimentos provocados por arma branca”, revelou em comunicado a Polícia Judiciária (PJ), que entretanto tomou conta da investigação. “Apesar dos sinais vitais ainda detetados, o óbito veio a ser declarado no local instantes depois”, esclarece a força policial.

Os dois carros da GNR pararam perto da placa que assinala a chegada a Casais. Os poucos carros que por ali querem passar têm de primeiro dizer ao que vêm. A entrada está bloqueada a todos os que não sejam moradores. Residente da primeira casa à entrada da aldeia, Jaime Lopes, que durante vinte anos esteve à frente da junta de freguesia, recorda o susto que apanhou ao ver a vizinha, acompanhada do pastor alemão de que é dona, a chamar por ajuda.

“Vejo vir a senhora, também com um cão ao lado dela, um pastor alemão, a mulher a gritar e a pedir socorro. A vizinha chamou-me: ‘Oh Jaime, oh Jaime, venha cá’”, começa por dizer ao Observador o ex-presidente da Junta. Jaime Lopes refere que a vizinha “estava muito maltratada”. “Tinha um plástico atado nas pernas em baixo e nos pulsos. Até tirou um pedaço de nylon que trazia”, relata. Isso mesmo confirmou a PJ, que em comunicado indicou que a mulher “foi encontrada pelas autoridades com sinais de ter sido manietada e agredida”.

A vítima, que se tinha mudado há cerca de dois anos com o filho para Casais, era pouco conhecida dos moradores. “Era reservada”, comenta uma moradora, que nem sabia que a mulher tinha nacionalidade britânica. Já o ex-namorado, dizem os residentes da aldeia, era conhecido pelos piores motivos. “Ele era um indivíduo que não era grande rolha, é mesmo assim. Já há uns anos que matou um indivíduo em Tomar”, conta Jaime Lopes. A informação foi confirmada ao Observador pela PJ, que adiantou que o suspeito da morte do menor e da explosão já tinha estado preso por homicídio qualificado. O Observador sabe que cumpriu pena entre 2002 e 2016.

O homem não vivia, porém, com a vítima. A relação já tinha terminado. Um dia antes do ataque o agressor tinha partilhado no Facebook um clip de um música do cantor e rapper canadiano Dax, acompanhado da descrição “meu coração dói”, “coração partido”.

Já tinham sido registadas queixas de violência doméstica anteriores ao ataque desta terça-feira, apurou o Observador. A coordenadora da PJ de Leiria, Sílvia Lopes, também confirmou essa informação em declarações à agência Lusa: “Na família já haviam sido reportadas situações de violência doméstica, nos últimos dois anos”. O comunicado emitido pela PJ acrescenta que a família “estava sinalizada na sequência de processos de violência doméstica registados em 2022 e 2023”.

Jaime Lopes recorda que, apesar do casal já não estar junto, o homem aparecia por vezes na aldeia. “Vinha aí e tal, havia umas certas confusões. Já há muito tempo que eu não o via aí. Mas, de vez em quando, quando aparecia, eu dizia: ‘Isto qualquer dia vai terminar mal’. E terminou na pior espécie, da pior forma”, lamenta.

Num comunicado enviado às redações ao final da tarde, a Polícia Judiciária indicou que o Departamento de Investigação Criminal de Leiria está a “desenvolver diligências investigatórias no sentido de esclarecer as circunstâncias de duas mortes ocorridas esta manhã, na freguesia de Casais em Tomar”. “Tratam-se das mortes por esfaqueamento de um adolescente de 13 anos e do presumível autor, ex-companheiro da sua mãe, encontrada pelas autoridades com sinais de ter sido manietada e agredida, encaminhada entretanto para a unidade hospitalar mais próxima”, lê-se.

A PJ refere ainda que “na sequência de um alerta para o que parecia ser um cenário de violência domestica”, a GNR se deslocou ao local. Os militares desta força notaram no interior da habitação “um forte odor a gás que resultou, instantes depois numa explosão que causou ferimentos num dos elementos da GNR”. “As janelas ficaram todas partidas”, descreve Jaime Lopes.

Quando as autoridades chegaram ao local, “tanto o presumível agressor como o menor apresentavam diversos ferimentos provocados por arma branca, mas, apesar dos sinais vitais ainda detetados, o óbito veio a ser declarado no local instantes depois”.

Tanto a mulher como o GNR foram transportados para o Hospital de Tomar, revelou o major João Moderno, comandante do Destacamento Territorial dessa região. A vítima recebeu assistência de psicólogos do INEM.