ENTREVISTA || Num tempo que rejeita a dor e medicaliza a vulnerabilidade, o psiquiatra João Perestrelo, autor de “Aprender a Andar no Escuro” defende que o sofrimento não é um erro a corrigir, mas uma experiência humana a compreender. Critica a cultura do evitamento e alerta para os riscos de romantizar a dor e lembra: “Aprender a andar no escuro é perceber que a escuridão também pode ser atravessada”

Numa conversa luminosa sobre a sombra e a escuridão, o psiquiatra e psicoterapeuta João Perestrelo, que acaba de lançar o livro Aprender a Andar no Escuro desmonta a ideia de que o sofrimento é um inimigo a eliminar. Defende que a dor, apesar de dura, é também um território fértil de transformação. O importante é que não seja romantizada nem negada. Crítico da cultura do evitamento, da medicalização excessiva e da indústria que promete felicidade instantânea, sublinha que aliviar não é amputar a experiência humana. “Aliviar o sofrimento é diferente de negá-lo. Aliviar implica reconhecê-lo como parte da vida e aprender a habitá-lo com mais consciência. Negar é amputar a nossa vulnerabilidade e substituir a humanidade por um ideal de estabilidade permanente, que não existe”, sublinha, nesta conversa com a CNN Portugal.

João Perestrelo reforça o papel central da psicoterapia, onde o sofrimento se torna história e sentido, e alerta para as falhas estruturais de um sistema de saúde que responde a fragilidades humanas com protocolos e falta de presença. “Continuamos a responder a um sofrimento essencialmente humano com estruturas desenhadas para tratar doenças. Precisamos de um modelo que una a ciência à presença, que devolva tempo aos profissionais e dignidade aos pacientes”, critica.

Entre reflexões sobre vulnerabilidade, limites da ajuda e propósito, deixa uma mensagem essencial: sofrer é humano e aprender a caminhar no escuro não elimina a noite, mas devolve-nos a capacidade de avançar dentro dela.

No livro “Aprender a Andar no Escuro”, o psiquiatra João Perestrelo fala-nos da importância de assumir o sofrimento, para encontrar nele um “espaço fértil de transformação”. (Imagem: Contraponto/Divulgação)

O título do livro, “Aprender a Andar no Escuro”, é muito evocativo. O sofrimento é sempre um lado negro? Não pode ser encarado de uma forma… digamos… positiva…  como uma oportunidade?

A ideia de que o sofrimento é negro nasce da nossa tendência para dividir o mundo em opostos: o bom e o mau, o claro e o escuro, o prazer e a dor. Guiados por essa visão polarizada, esquecemo-nos de que a vida raramente se exprime em extremos. Na verdade, desenrola-se nas tonalidades intermédias. O sofrimento, embora desconfortável e por vezes devastador, pode ser um espaço fértil de transformação. É nele que somos forçados a parar, a questionar, a reavaliar o rumo da nossa existência. Quando o encaramos não apenas como um inimigo a derrotar, pode tornar-se numa oportunidade (dolorosa, sim, mas potencialmente libertadora) de crescimento, de reconciliação e de transcendência. Aprender a andar no escuro é, no fundo, descobrir que a escuridão também pode ser atravessada.

Como é que se pode transformar a dor em aprendizagem, sem cair em romantizações perigosas?

O sofrimento não deve ser romantizado, sob risco de se desvirtuar a experiência e retira-lhe validade. A dor é, antes de mais, uma experiência humana inevitável. Tentar transformá-la em algo “bonito” é uma forma subtil de a negar. Transformá-la em aprendizagem não acontece por decreto, nem pela simples passagem do tempo. Depende da fase de vida, da história pessoal, do sistema de crenças pessoais, da presença de suporte e, sobretudo, da capacidade de permanecer em contacto com o que dói sem fugir ou lhe dar um significado forçado.

Em alguns momentos, o sofrimento apenas precisa de ser acolhido. Noutras vezes, quando a ferida começa a sarar, pode emergir um sentido novo. Não porque a dor “vale a pena”, mas porque aprendemos algo sobre os nossos limites, sobre o que realmente importa e sobre a fragilidade que nos torna humanos.

Vivemos num tempo que parece intolerante ao sofrimento. Porque é que temos tanta dificuldade em lidar com a dor emocional?

Somos biologicamente concebidos para evitar o dano. Se assim não fosse, não teríamos sobrevivido enquanto espécie. O evitamento é, por isso, um mecanismo de autopreservação profundamente inscrito no cérebro. O problema é que, na sociedade atual, este mesmo mecanismo, que outrora garantiu a sobrevivência, transformou-se num evitamento ativo de tudo o que possa doer, física, emocional ou existencialmente.

Vivemos numa cultura orientada para o prazer imediato, para a distração constante e para a ilusão de controlo. A dor passou a ser vista como uma anomalia a corrigir, em vez de uma experiência a compreender. Mas quando eliminamos o espaço para sofrer, eliminamos também a possibilidade de integrar e amadurecer. Paradoxalmente, quanto mais tentamos evitar o sofrimento, mais ele se infiltra, disfarçado de ansiedade, depressão ou vazio.

A indústria do bem-estar e a medicalização crescente do nosso dia-a-dia ajudam ou atrapalham este processo de lidar com a dor emocional? Não há uma diferença entre aliviar o sofrimento e negar a experiência do sofrimento e não estaremos a caminhar para esta segunda hipótese?

A visão médica tradicional encara a doença como algo que compromete a estrutura ou o funcionamento do corpo e que, por isso, deve ser identificado, tratado e eliminado. Este modelo é extremamente útil quando falamos do corpo físico: de infeções, tumores, inflamações. Mas na saúde mental, o que está em causa não é uma “doença” nesse sentido, mas uma perturbação. Uma alteração da forma como sentimos, pensamos ou nos relacionamos com o mundo, muitas vezes em resposta a circunstâncias de vida. Enquanto a doença é algo que temos, a perturbação é algo que vivemos. Surge num contexto, tem uma história e fala sobre a nossa relação com o sofrimento. Por isso, quando aplicamos um modelo médico rígido à saúde mental, corremos o risco de patologizar a própria condição humana.

A medicalização excessiva e a indústria do bem-estar acabam por reforçar esta ideia de que o sofrimento é um erro, algo a corrigir rapidamente. Mas aliviar o sofrimento é diferente de negá-lo. Aliviar implica reconhecê-lo como parte da vida e aprender a habitá-lo com mais consciência. Negar é amputar a nossa vulnerabilidade e substituir a humanidade por um ideal de estabilidade permanente, que não existe.

Que papel têm hoje as psicoterapias e o que ainda falta mudar na forma como olhamos para elas em Portugal?

A psicoterapia é o coração do tratamento. É o espaço onde a pessoa pode compreender o seu funcionamento interno, questionar crenças limitantes, transformar padrões de comportamento e aprender a relacionar-se consigo com mais compaixão. É também o lugar onde se reconstrói o sentido e isso não pode ser feito através de um comprimido. A medicação pode estabilizar, atenuar sintomas, criar condições para o trabalho psicológico, mas não substitui o processo de autoconhecimento e integração que a psicoterapia oferece. Limitar o tratamento das perturbações mentais à toma de fármacos é reduzir a complexidade humana ao seu mínimo denominador biológico, perpetuando um paradigma médico que trata o sofrimento como um erro e não como um sinal.

Em Portugal, ainda há o desafio de desmistificar a psicoterapia, de a ver não como um recurso “para quando tudo falha”, mas como um espaço de crescimento, prevenção e aprofundamento da saúde mental.

Porque é que as pessoas têm tanta relutância em procurar ajuda psicoterapêutica? Será vergonha social? Medo do que vão encontrar sobre si mesmos?

Em primeiro lugar, por desconhecimento do que é realmente a psicoterapia. Ainda existe a ideia de que se trata apenas de conversar. E, como tantas vezes oiço, “para conversar, converso com um amigo”. Mas a psicoterapia transcende o diálogo. Implica um trabalho profundo, muitas vezes silencioso, que envolve o corpo, a memória, a emoção e a forma como nos relacionamos com o que sentimos.

Depois, há fatores sociais e culturais. Fomos educados para valorizar a autonomia e a força, não a vulnerabilidade. Os homens, em particular, tendem a pedir menos ajuda, muitas vezes por medo de parecerem fracos. E a vergonha continua a ser um elemento central: a vergonha de precisar, de não saber, de se confrontar com o que possa estar por baixo da superfície.

Como é que a ciência contemporânea (da neurobiologia à psicologia, passando pela psiquiatria) pode ajudar-nos a compreender o sofrimento sem o reduzir apenas a um desequilíbrio químico ou hormonal?

A ciência tem vindo a mostrar que o sofrimento é um fenómeno simultaneamente biológico, psicológico e relacional. O cérebro é, sem dúvida, o palco onde a dor emocional se manifesta, através de alterações químicas, hormonais e estruturais, mas não é o seu único protagonista. O sofrimento emerge do encontro entre a biologia e a biografia, entre a vulnerabilidade genética e as experiências de vida que moldam a forma como sentimos e interpretamos o mundo. Reduzir o sofrimento a um desequilíbrio químico é negar a sua dimensão simbólica.

Há um limiar entre o sofrimento inevitável e o sofrimento que já se torna patológico? Como distinguir um do outro?

O sofrimento é inevitável, faz parte da condição humana. Todos sofremos – por perda, por amor, por medo, por mudança. Mas o sofrimento torna-se patológico quando deixa de nos mover e passa a paralisar. Quando o desconforto, em vez de nos transformar, começa a consumir a vitalidade, a restringir a liberdade e a capacidade de estar no mundo, então já não estamos apenas diante da dor inevitável da vida, mas de um sofrimento que se cristalizou.

E, no meio de tanta dor, como é que se mantém uma atitude de esperança, sem cair em positivismos vazios?

Substituiria a palavra esperança por propósito. Aquele que tem um ‘porquê’ para viver, suporta quase qualquer ‘como’”, lembrava-nos o psiquiatra Viktor Frankl. Ter um propósito não é negar a dor nem acreditar que tudo acabará bem. É conseguir olhar para o que existe tal como é, e, ainda assim, apontar numa direção que faça sentido.

A esperança, tal como muitas vezes a entendemos, pode ser uma forma disfarçada de fuga – a expectativa de que algo exterior virá resgatar-nos. O propósito, pelo contrário, é um movimento interno. Dá-nos direção, mesmo quando não há “luz”. E talvez seja isso, no fundo, o que significa aprender a andar no escuro.

No consultório, o que mais o surpreende nas pessoas que chegam em sofrimento?

Já poucas coisas me surpreendem. Depois de tantos anos a lidar de perto com a dor e a miséria humanas, aprendi que aquilo que me diferencia da pessoa à minha frente é apenas a cadeira que ocupo.

Talvez o que ainda me entristeça seja a forma como a vulnerabilidade continua a ser confundida com fraqueza. Na verdade, é o contrário: a vulnerabilidade é o ponto de encontro entre o medo e a coragem, o lugar onde o humano se revela por inteiro.

No consultório vejo, todos os dias, pessoas que acreditam estar a falhar quando sofrem e, paradoxalmente, é nesse reconhecimento da fragilidade que começa o verdadeiro processo de cura.

E o que tem aprendido, enquanto terapeuta, sobre os limites da ajuda e sobre a importância de aceitar esses limites?

Os limites da ajuda coincidem com a capacidade de a receber. Se me sento diante do outro em resistência, aquilo que posso integrar será sempre reduzido. Tudo passa pelo filtro da mente e esse filtro, quando rígido, condiciona profundamente a experiência.

Aceitar a vulnerabilidade inerente à condição humana é o primeiro passo para pedir e receber ajuda. Do lado do terapeuta, abandonar o complexo de salvador é essencial para que também ele sofra menos e não se confunda com o processo do paciente, sentindo-se impotente quando a mudança não acontece.

O resultado terapêutico nasce do encontro entre duas vontades: a de quem procura e a de quem acompanha. O terapeuta é o farol que ilumina a noite, mas é o paciente quem segura o leme. A luz ajuda a ver melhor, mas não substitui a escolha da direção.

Nos últimos anos tem-se falado mais de saúde mental, mas os recursos continuam escassos. Nomeadamente os recursos humanos. O que é que ainda está a falhar na forma como o país responde ao sofrimento psicológico?

Faltam recursos humanos, mas falta sobretudo formação de qualidade. Um psiquiatra, em Portugal, não recebe formação psicoterapêutica especializada durante a sua formação. Se a quiser, terá de a procurar por iniciativa própria, investindo tempo e recursos económicos. Isto cria um vazio enorme na prática clínica: o médico fica mais preparado para prescrever do que para escutar. E o paciente perde a possibilidade de uma abordagem verdadeiramente integrativa.

Repensar a formação em psiquiatria e psicologia é urgente. Precisamos de profissionais que saibam olhar para as perturbações mentais não apenas como um conjunto de sintomas, mas como uma história, uma relação e uma experiência encarnada. O sistema de saúde continua a responder ao sofrimento com protocolos, quando o que o sofrimento pede é presença.

Falta literacia emocional? Faltam políticas públicas? Ou falta tempo para parar e escutar?

Falta tudo isso: literacia emocional, políticas públicas consistentes e tempo para parar e escutar. Mas falta também repensar o modelo de assistência em saúde mental. Continuamos a responder a um sofrimento essencialmente humano com estruturas desenhadas para tratar doenças. Precisamos de um modelo que una a ciência à presença, que devolva tempo aos profissionais e dignidade aos pacientes.

O SNS não tem oferta suficiente. Marcar uma consulta no setor privado é uma aventura… demorada. Os seguros de saúde não têm cobertura de psicoterapia ou de psicologia. O que é que falta para mudarmos este paradigma?

Precisamos, antes de mais, de profissionais de saúde mental inseridos nos grupos políticos e em lugares de decisão. Enquanto as políticas forem desenhadas apenas por quem vê o sofrimento à distância, continuaremos a criar medidas desajustadas da realidade. Não basta aumentar o número de consultas. É preciso repensar o sistema a partir da sua base: da prevenção, da educação emocional e do acesso equitativo ao cuidado. A saúde mental não pode continuar a ser um luxo, é um direito fundamental.

Que mensagem gostaria que o leitor levasse deste livro?

Quem escreve deseja, inevitavelmente, deixar uma marca em quem lê. A que gostaria de deixar é simples: a lembrança de que sofrer faz parte da condição humana, que a dor não é sinal de fraqueza ou incapacidade, mas uma das formas mais puras de estarmos vivos.

Gostaria que o leitor guardasse a ideia de que todo o sofrimento tem um ciclo – um início, um meio e um fim -, mesmo quando o fim ainda não se vislumbra. Que há sempre um intervalo entre o que se perde e o que se reencontra e que é nesse espaço que podemos crescer, compreender e transformar.

No fundo, desejo que este livro funcione como um companheiro silencioso, não para apagar a escuridão, mas para lembrar que é possível caminhar dentro dela.