A decisão de Ana Paula Martins surge após uma investigação do Exclusivo sobre o médico em maio de 2025
A ministra da Saúde demitiu afastou Alexandre Lourenço da presidência do Hospital de Coimbra (ULSC). A decisão de Ana Paula Martins surge após uma investigação do Exclusivo em maio de 2025 sobre o médico.
Em 2017, Alexandre Lourenço assumiu a presidência da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) enquanto desempenhava funções na Unidade de Inovação e Desenvolvimento no Centro Hospitalar de Coimbra.
Durante seis anos representou a associação em conferências por todo o mundo, financiadas pela indústria farmacêutica, e continuava a ser pago pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS). Mas as ausências acumulavam-se no hospital.
Na altura, o Exclusivo revelou que Alexandre Lourenço acumulava faltas injustificadas nos recursos humanos do hospital porque não tinha autorização para acumular funções. As provas a que tivemos acesso mostram que, durante seis anos, Alexandre Lourenço alegou falhas constantes no registo biométrico – precisamente nos dias em que participava em eventos da associação, por exemplo.
Em maio de 2022, no dia 3, alegou a falha na marcação do registo biométrico. Portanto, admite que estava a trabalhar. Mas, no blogue pessoal publicou um vídeo que prova o contrário: afinal, estava no Congresso de Sustentabilidade em Saúde, em Lisboa.
Depois da investigação da TVI, a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) abriu um inquérito e agora, no relatório preliminar a que tivemos acesso, esse facto é confirmado.
As funções principais exercidas na ULSC, enquanto administrador hospitalar, acumuladas com outras funções privadas, designadamente na APAH, potenciaram ausências e sobreposições irregulares.
Em súmula, foram identificados dias em que o trabalhador registou presenças de assiduidade na ULSC através de picagem biométrica e o registo manual, apesar de se encontrar comprovadamente a participar em sobreposição em eventos em representação da APAH.
Mas há mais, nomeadamente as relações estreitas com empresas que colaboravam com a APAH e que mais tarde, já com Alexandre Lourenço como presidente da ULS de Coimbra, efetuaram ajustes diretos com o hospital.
A análise dos contratos celebrados com as empresas ByMe e NoBox revelam indícios de práticas suscetíveis de configurar um eventual fracionamento contratual e violação dos princípios da contratação pública, nomeadamente no que respeita à agregação de necessidades, transparência e concorrência, factos que poderão eventualmente integrar infrações geradoras de responsabilidade financeira sancionatória.
Responsabilidades que crescem quando olhamos para os valores declarados só em 2019, no site do Infarmed, pela APAH, liderada à época por Alexandre Lourenço. Só nesse ano recebeu da indústria farmacêutica 210 mil euros mas, no relatório de contas a que o Exclusivo teve acesso, o valor dos patrocínios é superior a 400 mil euros.
A análise revelou discrepâncias significativas entre os valores de patrocínios declarados pela APAH e os registados na plataforma do Infarmed, totalizando uma diferença de 520.179 euros entre 2019 e 2024.
Alexandre Lourenço foi informado deste relatório e recorreu. O Exclusivo sabe que os inspetores da IGAS estão prestes a enviar a versão final para a ministra da Saúde mas, perante os factos e a conduta de Alexandre Lourenço, Ana Paula Martins já tomou uma decisão.
Alexandre Lourenço diz que encara a decisão com naturalidade e serenidade. Para o seu lugar, a ministra prepara-se para indicar Francisco Maia Matos, doutor em Medicina, professor auxiliar na Faculdade de Coimbra, assistente graduado sénior e até agora o diretor de Anestesiologia deste hospital. Teve um papel relevante durante a pandemia como coordenador de áreas críticas e redator do Plano de Emergência e Catástrofe da Instituição. É o homem que se segue e encerra um capítulo repleto de polémicas.