Uma equipa de investigadores liderada pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) estudou os primeiros casos confirmados em Portugal de infeção por ‘candida auris’, um fungo resistente a medicamentos considerado uma ameaça à saúde pública global

O que é 

De acordo com a CUF, o “candida auris” é uma espécie de fungo que está associado a múltiplos surtos, infeções graves e altas taxas de mortalidade em todo o mundo. Em causa está um fungo patogénico capaz de entrar na corrente sanguínea e de invadir todo o corpo. Este fungo foi identificado pela primeira vez em 2009, no Japão.

Porque pode ser perigoso?

A infeção por candida auris é invasiva e pode atingir o sangue, feridas, ouvidos e até órgãos vitais como o coração e o cérebro. Estima-se que entre 30% a 60% dos doentes afetados podem não sobreviver, sobretudo aqueles com outras doenças graves, sistema imunitário comprometido ou internamentos prolongados.

“Contudo, é importante ter em consideração que a maioria destas pessoas tinha outros problemas de saúde graves que aumentaram o seu risco de mortalidade. O facto de existirem já outras doenças pode também contribuir para que seja mais difícil diagnosticar esta infeção”, adianta a CUF.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é complexo. Métodos laboratoriais comuns muitas vezes não conseguem identificar o candida auris, sendo necessário recorrer a técnicas específicas e a testes de sensibilidade para determinar os antifúngicos mais eficazes.

“Este fator dificulta um correto diagnóstico, o que, por sua vez, pode colocar em causa o correto tratamento do doente. Consequentemente, este fungo pode espalhar-se mais fácil e rapidamente. O diagnóstico de candida auris requer métodos laboratoriais específicos.”

Como se transmite

O fungo transmite-se facilmente através do contacto direto com pessoas infetadas, mesmo assintomáticas, ou superfícies contaminadas, onde pode sobreviver semanas. Os principais fatores de risco incluem internamentos prolongados, cirurgias recentes, uso de cateteres e antibióticos de largo espectro, doenças crónicas como diabetes, ou imunidade comprometida.

Quais são os principais fatores de risco?

  • Doentes internados ou residentes em lares
  • Doentes polimedicados ou com cirurgia recente
  • Alterações do sistema imunitário (algumas situações de cancro ou diabetes)
  • Toma de antibióticos ou de antifúngicos de largo espectro
  • Presença de tubos ou cateteres, como, por exemplo, sondas de alimentação, algálias ou cateteres venosos centrais.

Como é feito o tratamento?

O tratamento recorre principalmente a equinocandinas, mas podem ser necessários vários antifúngicos em doses elevadas quando há resistência.

Como se evita a transmissão

Para prevenir a propagação, a higiene rigorosa das mãos, a desinfeção de superfícies hospitalares e o cuidado no uso de dispositivos médicos são essenciais. Em caso de suspeita de infeção, é fundamental procurar rapidamente assistência médica.

Países com casos

Espanha, Grécia, Itália, Roménia e Alemanha foram os países com a maioria dos casos ao longo da década, tendo sido registados “surtos recentes em Chipre, em França e na Alemanha, enquanto Grécia, Itália, Roménia e Espanha indicaram que já não conseguem distinguir surtos específicos devido à ampla disseminação regional ou nacional”.

E Portugal?

Uma equipa de investigadores liderada pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) estudou os primeiros casos confirmados em Portugal de infeção por ‘Candida auris’, um fungo resistente a medicamentos considerado uma ameaça à saúde pública global.

Num comunicado enviado hoje à agência Lusa, a FMUP descreve que este estudo identifica os primeiros casos de ‘Candida auris’ no país, resultando em conclusões que reforçam a importância da vigilância hospitalar.

“É fundamental que as instituições dedicadas ao ensino e à investigação se articulem com os hospitais e ULS [Unidades Locais de Saúde], no sentido de uma investigação translacional integrada, de modo a reforçar a capacidade de resposta a desafios emergentes em saúde pública com base em evidência”, defende Sofia Costa de Oliveira, docente da FMUP que coordenou o estudo, cujos resultados foram publicados na revista científica Journal of Fungi em outubro de 2025.

Foram classificados oito casos identificados em 2023, num hospital da região Norte, lê-se no resumo partilhado com a Lusa, no qual é salvaguardado que “nenhuma das três mortes dos casos de infeção invasiva reportados esteve exclusivamente associada à infeção, mas sim a comorbilidades severas dos doentes”.

Sublinhando que “é importante perceber que este fungo é de propagação hospitalar e não comunitária”, a coordenadora refere que “a sua relevância em saúde pública está associada principalmente à facilidade de transmissão em unidades de cuidados de saúde e à resistência a alguns antifúngicos, o que justifica uma vigilância reforçada”.

“A deteção precoce de colonização ou infeção em doentes em risco permite uma intervenção mais eficaz e limita a propagação nos serviços de saúde. As medidas de controlo de infeção, como a higiene rigorosa das mãos, a desinfeção de superfícies e equipamentos e a vigilância laboratorial, são cruciais para reduzir a transmissão”, conclui.

A ‘Candida auris’ é uma levedura que pode colonizar a pele e causar infeções invasivas em doentes com fatores de risco, como doenças graves, tratamentos invasivos e uso de antibióticos e imunossupressores. Considerada uma ameaça à saúde pública global, está disseminada em vários continentes, atingindo cerca de 60 países.

O microrganismo não é transmitido pelo ar, mas sim por contacto entre doentes, entre profissionais de saúde, ou com superfícies e equipamentos contaminados.

Esta espécie distingue-se pela resistência a múltiplos fármacos antifúngicos e pela capacidade de persistir em superfícies e equipamentos, o que pode facilitar a transmissão em unidades de cuidados de saúde.

“A caracterização dos mecanismos envolvidos na resistência à terapêutica antifúngica é fundamental para investigar alternativas farmacológicas mais eficazes. O próximo passo será explorar o impacto real das novas mutações detetadas na progressão da infeção e na resistência antimicrobiana da ‘Candida auris’, de forma a tentar controlar esta ameaça global para a saúde”, defende a professora.

O artigo resultou de um trabalho de investigação que também juntou Isabel Miranda, da FMUP e RISE-Health, Dolores Pinheiro, José Artur Paiva e João Tiago Guimarães, da FMUP e da ULS São João, Micael Gonçalves, do CESAM, e Sandra Hilário, da FCUP.

Em setembro do ano passado, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) alertou para a rápida propagação nos hospitais deste fungo resistente a medicamentos e pediu medidas para travar a sua disseminação.

Em comunicado, o ECDC indicou que, entre 2013 e 2023, foram registados mais de 4.000 casos nos países da UE/EEE (inclui a Islândia, o Liechtenstein e a Noruega), destacando “um salto significativo” em 2023, ano em que foram divulgados 1.346 casos em 18 países.