Um alpinista amador austríaco foi condenado por homicídio negligente após abandonar a namorada durante uma escalada no Grossglockner, a montanha mais alta da Áustria, onde a mulher acabou por morrer de hipotermia. Thomas P., de 37 anos, recebeu uma pena de cinco meses de prisão com execução suspensa por três anos e uma multa de 9.600 euros. O julgamento no tribunal da cidade de Innsbruck prolongou-se por mais de 13 horas, tendo sido ouvidas 15 testemunhas, noticiou o The Local Austria.

Áustria. Alpinista acusado de homicídio após deixar namorada em hipotermia na montanha Grossglockner

O foco do julgamento foi determinar se Thomas P., enquanto alpinista mais experiente, tinha um dever de cuidado acrescido. Embora se tenha declarado inocente, o tribunal concluiu que uma sucessão de decisões erradas foi determinante para a morte de Kerstin G., de 33 anos, incluindo a escolha de uma via demasiado exigente para as condições de inverno, a falta de planeamento e de equipamento adequado e a decisão de não recuar atempadamente perante o agravamento do tempo, com por rajadas de vento até 74 km/h, temperaturas na ordem dos -8°C e uma sensação térmica próxima dos -20°C. Os juízes consideraram ainda relevante a atuação de Thomas P. após o surgimento das dificuldades, nomeadamente a demora em contactar os serviços de emergência, a ausência de sinais de socorro a um helicóptero que sobrevoou a zona e a falha em colocar a companheira num local mais protegido do vento, aumentando o risco de perda de calor numa situação já crítica.

Em tribunal, Thomas P. defendeu-se alegando que todas as decisões foram tomadas em conjunto e sublinhou a sua experiência como alpinista autodidata. Ainda assim, o juiz, que o qualificou como “um excelente alpinista”, entendeu que sendo o elemento mais experiente da dupla tinha um dever acrescido de cuidado, concluindo que a sua conduta configurou negligência grave face às condições adversas em que ocorreu a escalada.

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Durante a sessão, o tribunal ouviu a mãe da vítima e, de forma inesperada segundo o portal de notícias austríaco, uma ex-namorada de Thomas, que relatou ter feito várias excursões de montanha com ele. A ex-companheira descreveu o acusado como geralmente atento, mas por vezes rude e desdenhoso diante de dificuldades, recordando um episódio em que foi deixada sozinha na escuridão após a avaria de uma lanterna.

Já a mãe de Kerstin salientou que a filha era determinada e fisicamente preparada, presumindo que teria verificado as condições de segurança antes da subida, mas admitiu não saber quem planeou a excursão nem se existia um plano de regresso definido.

O juiz, ele próprio socorrista de montanha, explicou que, apesar de “reduções significativas” nas alegações da acusação, a negligência grave “concretizou-se em qualquer caso devido às circunstâncias cumulativas”, afirmando que Thomas não cumpriu as “responsabilidades de liderança que assumiu da forma exigida por lei”. “O senhor não foi condenado por ser melhor”, mas por ultrapassar os limites do que se entende por “liderar por cortesia”, acrescentou o juiz, frisando que teria sido “facilmente possível” garantir a sobrevivência de Kerstin, por exemplo com cobertores de emergência, que acabou por morrer num local “onde se perde a vontade de viver”.