Nunca houve tantas alternativas para emagrecer. Cirurgias bariátricas, procedimentos endoscópicos, medicamentos injetáveis e diferentes estratégias alimentares ampliaram as opções de tratamento para a obesidade. Ao mesmo tempo, o crescimento da doença tem sido acelerado no mundo e no Brasil.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com obesidade no planeta. O número inclui cerca de 650 milhões de adultos, 340 milhões de adolescentes e 39 milhões de crianças. A prevalência global mais que dobrou desde 1990 entre adultos e quadruplicou entre crianças e adolescentes.

No Brasil, o cenário segue a mesma tendência. Estimativas do Ministério da Saúde indicam que cerca de 60% da população adulta apresenta excesso de peso, e aproximadamente um em cada quatro brasileiros vive com obesidade. O avanço da doença também aparece entre os mais jovens, acompanhando mudanças no padrão alimentar, no estilo de vida e no ambiente urbano.

Apesar disso, especialistas alertam que nenhuma técnica funciona isoladamente. Por ser reconhecida como uma doença crônica e metabólica, o tratamento envolve mudanças sustentadas de comportamento e acompanhamento multidisciplinar.

Obesidade é doença crônica e exige tratamento contínuo

A endocrinologista Luciana Péres explica que o reconhecimento por se tratar de uma condição crônica ajuda a reduzir a culpabilização dos pacientes e amplia o olhar sobre o problema. Durante muito tempo, a obesidade foi tratada apenas como consequência de hábitos inadequados.

Segundo Péres, continuidade não significa necessariamente uso permanente de medicamentos, mas sim a manutenção de medidas que sustentam o controle da doença, como alimentação adequada, prática regular de atividade física, qualidade do sono e controle do estresse.

Essa mudança de abordagem também desloca o foco do tratamento. Em vez de concentrar esforços apenas na perda inicial de peso, o objetivo passa a ser a manutenção dos resultados ao longo do tempo e a melhora das doenças associadas.

A psiquiatra Denise Blaya Rocha, do Hospital Moinhos de Vento, reforça que tratar a obesidade apenas como uma questão estética pode levar à negligência de aspectos clínicos importantes. “A obesidade aumenta muito o risco de doenças oncológicas, cardiovasculares, hepáticas e tantas outras”, afirma.

De acordo com Rocha, compreender a obesidade como doença também contribui para que o paciente se comprometa com um tratamento efetivo. A condição envolve impactos físicos e emocionais e exige acompanhamento médico e psicológico ao longo das mudanças que ocorrem durante o processo de perda de peso.

Do balão às canetas: quais são as principais técnicas

O avanço da medicina ampliou as opções de tratamento para obesidade, que hoje incluem desde procedimentos endoscópicos até cirurgias e medicamentos específicos. Cada abordagem tem indicações diferentes, níveis de invasividade distintos e resultados esperados variados.

Segundo o cirurgião Artur Seabra, chefe do Serviço de Cirurgia Geral do Hospital Moinhos de Vento, a escolha do método depende principalmente do índice de massa corporal (IMC), da presença de doenças associadas e da avaliação de uma equipe multidisciplinar.

1️⃣Balão intragástrico

Entre as opções menos invasivas está o balão intragástrico, colocado por endoscopia e preenchido com líquido para ocupar espaço no estômago e aumentar a sensação de saciedade. O dispositivo permanece no organismo por seis a doze meses e costuma ser indicado para pacientes com IMC entre 30 e 40.

Segundo Seabra, a expectativa média de perda de peso nesse período varia entre 7% e 14% do peso corporal. Por ser um método temporário, o resultado depende fortemente da adesão do paciente às mudanças de alimentação e estilo de vida.

2️⃣Gastroplastia endoscópica

A gastroplastia endoscópica também é realizada por endoscopia, mas utiliza suturas internas para reduzir o volume do estômago, simulando o efeito da cirurgia conhecida como sleeve, sem necessidade de retirar parte do órgão.

De acordo com o cirurgião, o procedimento tende a produzir resultados superiores aos do balão intragástrico e com efeito mais duradouro. A perda estimada costuma variar entre 13% e 20% do peso corporal, sendo indicada principalmente para pacientes com IMC igual ou superior a 30.

3️⃣Cirurgia bariátrica

A cirurgia bariátrica tradicional inclui técnicas como o sleeve gástrico e o bypass gástrico. Os procedimentos são realizados cirurgicamente, geralmente por videolaparoscopia, e costumam ser indicados para pacientes com IMC acima de 35 ou acima de 30 quando há comorbidades associadas, como diabetes, hipertensão ou apneia do sono.

Nesses casos, a perda média de peso pode chegar a 25% ou 30% do peso corporal, com maior sustentação ao longo dos anos. Por outro lado, envolve maior complexidade e pode exigir acompanhamento nutricional permanente e suplementação vitamínica.

4️⃣ Medicamentos injetáveis para obesidade: canetas emagrecedoras

Nos últimos anos, medicamentos injetáveis de nova geração, as chamadas canetas emagrecedoras, passaram a integrar o tratamento da obesidade. Segundo a endocrinologista Luciana Péres, essas terapias podem levar a perdas de peso significativas, chegando a mais de 20% em um ou dois anos.

Ela ressalta, porém, que a manutenção do resultado depende frequentemente da continuidade do tratamento. A suspensão do medicamento pode favorecer o reganho de peso, especialmente quando não há mudanças consolidadas no estilo de vida.

5️⃣Medicamentos orais para obesidade

Além das terapias injetáveis, existem medicamentos administrados por via oral que também fazem parte do tratamento da obesidade. A endocrinologista Luciana Péres explica que esses fármacos podem ser indicados para pacientes com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades, sempre após avaliação clínica individualizada.

Entre os medicamentos conhecidos está a sibutramina, que durante anos ficou associada a uma imagem negativa. Segundo a endocrinologista, parte dessa percepção está ligada a comparações equivocadas com anfetaminas. Na prática, trata-se de um medicamento da classe dos antidepressivos que atua no controle do apetite e pode ser seguro quando utilizado em pacientes com indicação adequada.

Ela ressalta, no entanto, que o uso não é indicado para todos. Pessoas com doença cardiovascular ou diabetes tipo 2 associado a fatores de risco cardiovascular, por exemplo, podem ter contraindicações para esse tipo de tratamento. Assim como ocorre com outras abordagens, o medicamento não substitui mudanças de estilo de vida. A eficácia depende da combinação com alimentação adequada, atividade física e acompanhamento médico.

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Jejum, low carb, cetogênica: o universo das dietas

Além dos procedimentos médicos e medicamentos, o emagrecimento também envolve diferentes abordagens alimentares, muitas delas populares nas redes sociais e amplamente discutidas no consultório. Segundo o nutricionista Daniel Forster, estratégias como jejum intermitente, dietas com redução de carboidratos ou modelos cetogênicos podem levar à perda de peso, mas nenhuma delas é universal.

O jejum intermitente, por exemplo, pode funcionar bem para pessoas que concentram a fome em janelas mais curtas do dia ou que têm rotinas profissionais que dificultam a distribuição tradicional das refeições. Já dietas com menor consumo de carboidratos podem melhorar a sensibilidade à insulina em alguns pacientes.

Por outro lado, essas estratégias podem não ser adequadas para todos. Dietas com restrição de carboidratos, por exemplo, podem prejudicar a performance de atletas de endurance, que dependem de maior disponibilidade desse nutriente.

A dieta cetogênica, composta majoritariamente por gorduras, tem aplicações clínicas específicas, como no tratamento de epilepsia, mas pode causar efeitos adversos em algumas pessoas, como sonolência, mau hálito e dificuldade de concentração.

Segundo Forster, todas essas abordagens podem levar ao emagrecimento desde que exista déficit calórico, ou seja, quando o organismo gasta mais energia do que consome. “A melhor dieta é aquela que se adapta à rotina, ao paladar, ao organismo e à cultura do paciente”, afirma.

Ele também alerta que a popularização dessas estratégias na internet transformou dietas em verdadeiras identidades de grupo, com seguidores que defendem determinados métodos como soluções universais, ignorando diferenças metabólicas, culturais e genéticas entre as pessoas.

Perfeito. Vamos então para o próximo bloco da matéria, que é o que explica por que tantas pessoas emagrecem e depois voltam a ganhar peso. Aqui entram endocrinologista, nutricionista, cirurgião e psiquiatra.

Por que emagrecer é mais fácil do que manter o peso

Mesmo com o avanço das técnicas e medicamentos, manter o peso saudável ainda é um dos maiores desafios no tratamento da obesidade. Especialistas explicam que isso acontece porque o organismo possui mecanismos biológicos que tendem a recuperar as medidas anteriores.

Segundo a endocrinologista, existe um sistema de regulação conhecido como “set point” hipotalâmico. Quando uma pessoa atinge determinado peso mais elevado, o organismo passa a defendê-lo como referência. Após a perda, o corpo tende a aumentar a sensação de fome e reduzir o gasto energético, favorecendo o reganho. “Esse é um processo fisiológico, não uma falha de comportamento”, explica.

Por isso, medicamentos e procedimentos podem ajudar a reduzir o apetite ou limitar a ingestão alimentar, mas não eliminam completamente essa tendência biológica. Seabra ressalta que o reganho de peso pode ocorrer mesmo após intervenções médicas, especialmente quando não há adesão às mudanças de comportamento recomendadas. “O risco de reganho sempre existe e está ligado, na maioria dos casos, à falta de adesão às mudanças esperadas, como alimentação equilibrada e atividade física regular”, afirma.

No caso do balão intragástrico, por exemplo, a possibilidade de retorno do peso tende a ser maior justamente porque o método é temporário. Outro ponto importante é a qualidade do emagrecimento. Conforme o nutricionista Daniel Forster, perder peso rapidamente sem planejamento alimentar e prática de exercícios pode levar à perda excessiva de massa muscular.

“Nem sempre perder peso significa emagrecer. É possível perder mais músculo do que gordura quando não há estratégia nutricional e prática de exercícios”, explica. Por outro lado, também é possível manter o peso na balança e melhorar a composição corporal, reduzindo gordura e aumentando massa muscular ao mesmo tempo.

A psiquiatra Denise Blaya Rocha acrescenta que o processo de emagrecimento também envolve aspectos emocionais e comportamentais. Em alguns casos, a ansiedade associada à alimentação pode se deslocar para outros comportamentos compulsivos. Além disso, o chamado efeito sanfona, com ciclos de perda e recuperação de peso, pode gerar frustração e impacto na imagem corporal.

Entre saúde e pressão estética

A popularização de técnicas de emagrecimento nas redes sociais e na mídia também tem influenciado a forma como muitas pessoas procuram tratamento. Luciana Péres afirma que existe, sim, influência cultural e de mercado na procura por medicamentos e procedimentos para perda de peso. A grande visibilidade das chamadas “canetas emagrecedoras” ampliou o interesse pelo tratamento, mas também gerou expectativas pouco realistas.

Os medicamentos aprovados para obesidade, diz, possuem indicações clínicas bem definidas e geralmente para pacientes com obesidade ou com sobrepeso associado a comorbidades. A decisão de prescrever deve ser baseada na avaliação individual de riscos e benefícios, e não apenas em objetivos estéticos.

Daniel Forster também observa que o tema do emagrecimento passou a ocupar um espaço muito maior no ambiente digital, onde diferentes abordagens alimentares ganharam visibilidade e seguidores. Para Forster, muitas dessas estratégias acabaram se transformando em identidades de grupo, o que pode gerar polarização e desinformação.

Ele chama atenção ainda para o tamanho do mercado ligado ao bem-estar. A chamada indústria wellness movimentou cerca de US$ 6,8 trilhões em 2025, segundo dados citados pelo nutricionista, valor superior ao Produto Interno Bruto de alguns países desenvolvidos. Proliferam produtos, suplementos e métodos, que prometem resultados rápidos, muitas vezes sem base científica consistente, explica.

Do ponto de vista psicológico, a psiquiatra destaca que a exposição constante a padrões corporais idealizados pode aumentar frustrações e distorções na percepção da própria imagem. O risco, afirma, está na busca por resultados que não correspondem à realidade biológica ou clínica de cada pessoa. Isso pode levar a decisões impulsivas ou a tratamentos sem o acompanhamento adequado.

Para Rocha, o processo de emagrecimento envolve mudanças físicas e emocionais, o que torna fundamental o acompanhamento médico e psicológico ao longo do tratamento. “A busca por resultados rápidos, muitas vezes impulsionada por padrões difundidos nas redes sociais, pode criar expectativas irreais e levar pessoas a procurar intervenções sem avaliação adequada”, avalia.