Timothy Archibald / OneTaste

Nicole Daedone, ao centro, com praticantes de “meditação orgásmica”. A fundadora da OneTaste foi condenada a 9 anos de prisão

A prática promovida pela OneTaste combinava espiritualidade, mindfulness e sexualidade. Aparentemente, incluía coerção psicológica, emocional e financeira para forçar mulheres vulneráveis a actos sexuais com clientes e investidores da empresa, que levaram Nicole Daedone à prisão.

Em 2009, o The New York Times publicou uma reportagem sobre Nicole Daedone e a sua empresa de bem-estar, OneTaste, que promovia o empoderamento feminino através da chamada “meditação orgásmica” (OM).

“Não creio que as mulheres venham verdadeiramente a sentir-se livres enquanto não se apropriarem da sua sexualidade”, disse na altura Daedone, que se considerava a líder do “movimento slow-sex“, em que amor e romance são dispensáveis.

A empresa teve um enorme sucesso. Numa primeira fase, funcionava a partir de um armazém em São Francisco, onde muitos praticantes viviam em comunidade, praticando OM dia e noite, conta o The Guardian.

Mais tarde, abriu espaços em várias cidades dos Estados Unidos, incluindo São Francisco, Austin e Nova Iorque. A atriz Gwyneth Paltrow promoveu-a no seu podcast, e actores como David Schwimmer, Orlando Bloom e Brian Cox terão assistido a apresentações.

Em 2017, Daedone vendeu a OneTaste por 12 milhões de dólares. Nove anos mais tarde, a fundadora da empresa acabaria por ser condenada a pôr em prática a sua meditação orgásmica na prisão.

Na passada segunda feira, a juíza Diane Gujarati, do Tribunal Federal do Distrito de Brooklyn, sentenciou Daedone a 9 anos de prisão pelo se papel numa “conspiração envolvendo trabalho forçado“.

Segundo uma nota publicada pelo gabinete do procurador de Nova Iorque, a juíza concluiu que recorreu Daedone a coerção psicológica, emocional e financeira para forçar mulheres vulneráveis a actos sexuais com clientes e investidores da empresa. A antiga chefe de vendas da empresa, Rachel Cherwitz, foi condenada a 78 meses de prisão.

“Este caso expôs um esquema que durou uma década, no qual os arguidos usaram a coação psicológica, emocional e financeira para controlar as suas vítimas e extrair trabalho e serviços para seu próprio benefício”, afirma no comunicado o procurador do Estado de Nova Iorque, Joseph Nocella.

A decisão surgiu na sequência de uma série de investigações devastadoras sobre os principais executivos da OneTaste, que foram mesmo, em 2022, tema de um documentário da Netflix com o título Orgasm Inc.

Antigos clientes e formadores disseram ter sentido pressão para participar em “demonstrações” explícitas e contrair dívidas avultadas para pagar cursos e retiros, alguns dos quais custavam até 60 mil dólares.

“Uma regra prática ao explorar espaços sexualmente positivos pode ser perguntar: ‘Alguém está a enriquecer com isto?’”, explica Anouchka Grose, escritora e psicanalista em Londres. “Se a resposta for sim, há uma forte possibilidade de o dinheiro ser mais importante para o organizador do que o seu bem-estar.”

Mas afinal, o que é exactamente a OM, a prática que está na origem desta empresa e desta polémica?

O que é a meditação orgásmica?

A OM é uma prática de mindfulness com uma coreografia rígida. É feita em pares, normalmente compostos por um homem e uma mulher. Durante a sessão, a mulher reclina-se sobre um conjunto de almofadas e mantas conhecido como “ninho”.

A mulher está despida da cintura para baixo, com as pernas abertas em posição de borboleta, enquanto a pessoa que estimula, geralmente um homem, usa o dedo indicador da mão esquerda para acariciar o clítoris da mulher durante 15 minutos.

Segundo explica a jornalista Ellen Huet, que fez uma extensa cobertura da OneTaste e escreveu um livro sobre a empresa, durante esses 15 minutos a mulher e a pessoa que a estimula devem meditar sobre a sensação nos seus corpos.

Além disso, a prática pretende ser “sem objectivo”, isto é, não existe expectativa de reciprocidade nem de qualquer contacto posterior entre os dois participantes. “Os praticantes mais dedicados faziam OM quatro vezes por dia, ou mais — duas vezes de manhã, duas vezes à noite”.

Segundo várias plataformas ligadas à OM, a meditação orgásmica ajuda na resistência ao stress, na regulação emocional, nos afectos positivos e em “experiências místicas”.

Porém, há muito pouca investigação independente sobre os efeitos da OM – praticamente todos os estudos existentes foram conduzidos pela OM Foundation ou por investigadores ligados à empresa.

O orgasmo tem, de facto, benefícios fisiológicos, diz Grose. “Nas condições certas, os orgasmos podem reduzir a ansiedade, ajudar-nos a dormir e até aliviar a dor”, afirma. Alguns estudos mostraram também que podem melhorar a confiança, pôr-nos mais bem-dispostos e até reforçar o sistema imunitário.

“Mas isso não significa que as mulheres ‘devam’ estar a ter orgasmos o tempo todo, por quaisquer meios necessários”, adverte. “Se isso se transformar numa espécie de imposição medicalizada, então há um problema.”

Um dos objectivos assumidos por Daedone era eliminar a vergonha em torno do sexo e da sexualidade. Isso pode ser valioso, diz Grose. “Muitos danos sexuais continuam a acontecer devido à privacidade e ao secretismo que envolvem o sexo”.

Mas reunir-se em grupo e exercer pressão entre pares também pode ser prejudicial. Grose alerta para o pensamento de grupo que pode surgir nestes contextos, levando as pessoas a “fazer coisas que não querem fazer porque toda a gente no grupo parece estar bem com isso”.


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