O mês de conscientização sobre a adenomiose, conhecido como Abril Roxo, ocorre em meio ao avanço do Projeto de Lei 850/2025, que propõe instituir o atendimento integral à doença no Sistema Único de Saúde (SUS). A condição, muitas vezes confundida com a endometriose, ocorre quando o tecido endometrial infiltra a musculatura do útero e pode afetar uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Dados do Ministério da Saúde indicam que, em um ano, o SUS registrou 11.463 procedimentos ambulatoriais relacionados à patologia. Para o ginecologista Thiers Soares, especialista em cirurgia robótica e no tratamento de doenças ginecológicas complexas, o diagnóstico tardio ainda é um dos principais entraves no cuidado às pacientes.
Segundo ele, a normalização da dor menstrual intensa contribui para atrasos na investigação. Muitas mulheres, afirma, ainda crescem ouvindo que cólicas incapacitantes fazem parte da rotina, o que pode retardar a busca por atendimento e tratamento adequados.
De acordo com o médico, a adenomiose afeta a saúde feminina em diferentes frentes. Uma delas é o sangramento uterino intenso, que pode evoluir para quadros de anemia e comprometer a disposição física. Outra é a dor abdominal persistente, que leva muitas pacientes ao uso frequente de analgésicos e anti-inflamatórios para conseguir manter atividades básicas do dia a dia.
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O impacto também chega à produtividade e à rotina. A combinação entre dor pélvica, fadiga e desconforto contínuo pode reduzir o rendimento no trabalho e dificultar tarefas cotidianas. Na avaliação do especialista, esse quadro não se restringe ao campo ginecológico e pode repercutir de forma ampla na qualidade de vida.
A saúde mental também entra nessa equação. A incerteza em torno do diagnóstico, associada à dor crônica, pode intensificar ansiedade, insegurança e alterações no sono. Conforme Soares, trata-se de uma resposta do organismo a um processo inflamatório contínuo, e não apenas de um quadro emocional isolado.
Outro ponto destacado é o reflexo da adenomiose sobre a vida íntima e reprodutiva. A doença pode provocar dor durante as relações sexuais e também está associada a dificuldades para engravidar, o que afeta não apenas o corpo, mas o bem-estar emocional e os relacionamentos.
No debate sobre tratamento, o PL 850/2025 prevê acesso a atendimento multidisciplinar, com suporte psicológico e fisioterapia, entre outras frentes. Nos casos mais graves, Soares aponta a cirurgia robótica como uma alternativa de alta precisão, especialmente quando há interesse em preservar o útero.