Em frente a um microfone, dezenas de homens proclamam a mesma mensagem: pára de ver pornografia e de te masturbar, porque não só isso é um “comportamento de falhado”, como não ejacular faz-te estar “no teu melhor”.

Soa contraditório, depois de décadas a ouvir falar sobre as necessidades sexuais tantas vezes consideradas insaciáveis dos homens, mais ainda em fóruns onde a discussão orbita à volta de conquistar mulheres e tratá-las como objectos de submissão e de satisfação do homem, mas aqui chegou o discurso da manosfera.

Influencers na casa dos 20 e 30 anos debitam argumentos pseudocientíficos para sustentar essa tese, alegando que fazer “retenção de sémen”, como lhe chamam, faz um homem ter a “mente limpa” e ser “a melhor versão de si próprio”. Prometem ainda que a abstinência os vai fazer produzir mais testosterona (nesta linha, há uma tendência nas redes sociais brasileiras que recomenda expor ao sol a zona entre o ânus e o pénis – que não tem qualquer validade científica e pode ser perigosa), esperma de melhor qualidade, maior concentração e função cognitiva e maior “resistência sexual”. Há até quem diga que pode fazê-los ficarem mais altos.

Vendem o conselho no pacote extenso de dicas de bem-estar, saúde e relacionamentos, ao lado de coisas inócuas como “vai ao ginásio e mantém-te saudável” – e outras nem tanto, como “as mulheres precisam de autoridade”. Não é o mesmo tom cómico de desafios da Internet como o No Nut November – que propunha aos participantes não se masturbarem durante um mês e era imediatamente contraposto pelo Destroy Dick December, que convidava à masturbação quase compulsiva. Pelo contrário, inflige alguma vergonha e culpa a quem o faz.

“Masturbares-te é dificilmente a melhor coisa que tens a fazer e é tudo o que vocês, imbecis, parecem fazer. E perguntam-se porque não chegam a lado nenhum?”, questiona Andrew Tate, o guru da redpill. “O sexo mais gay que podes fazer é masturbares-te. Estás simultaneamente a masturbar um homem e a ser masturbado por um homem”, indigna-se o irmão, Tristan.


Mas os mitos à volta da ejaculação não nasceram agora. No mundo do desporto, é comum ouvir que os atletas não devem ter relações sexuais nas vésperas de um jogo ou prova importante. A ideia é mais ou menos a mesma, a de que a ejaculação pode atrapalhar a performance. E é, tal como as descritas acima, errada – ou, pelo menos, muito exagerada.

Afonso Morgado, urologista no Hospital de São João, explica: “No pós-orgasmo, a libertação de dopamina, prolactina, entre outras hormonas, podem deixar a pessoa num certo estado de apatia e mente turva. Do ponto de vista do desporto, onde se espera que a pessoa tenha uma alta performance, o estado de apatia talvez não seja o mais conveniente, mas isso é uma coisa momentânea, que não vai durar o dia inteiro. Muito menos se estivermos a falar de uma relação na noite anterior.”

O discurso anti-ejaculação até parte, em alguns dos casos, de uma base científica, mas rapidamente se desvia dos factos. É o caso da ideia da “maior produção de testosterona” quando não há libertação de sémen. “Na prática, quando alguém ejacula, a testosterona pode baixar um bocadinho e depois vai subindo, subindo, subindo, até chegar ao sétimo dia e atingir um valor mais alto. Mas, daí em diante, volta a [baixar para] o nível médio. Portanto, não é por alguém estar dois ou três meses sem ejacular que a testosterona vai mudar.”

O mesmo em relação à qualidade do esperma. Afonso Morgado refere que, geralmente, a colheita de esperma para casos de tratamento de infertilidade, por exemplo, é feita entre o segundo e o quinto dia após uma ejaculação, por uma questão de qualidade. Mas, a partir do sétimo dia, “a qualidade diminui bastante, já que os espermatozóides começam a ficar mais velhos e menos móveis”.

Apesar de não haver vantagens nesta ideia de retenção de sémen, também não há propriamente consequências negativas em passar meses sem ejacular, afiança o urologista. O corpo vai acabar por “abrandar na produção de esperma” ou fazer “emissões involuntárias”. A mensagem não é, por isso, nociva do ponto de vista físico, mas pode ser prejudicial a nível psicológico.


A masturbação é normal e recomenda-se

“A masturbação é saudável, não tira energia e não faz com que os homens sejam menos homens. Ainda está muito associada à ausência de sexo ou mau sexo, que faz com que a pessoa tenha que se tocar para preencher o que está em falta. Isso não é verdade”, afiança a psicóloga e sexóloga Vânia Beliz. “É a melhor forma que temos de nos descobrirmos, é saudável.”

Leonor de Oliveira corrobora: “É uma expressão normal da sexualidade e um comportamento comum até desde a infância.” A psicóloga e terapeuta sexual assegura que “a maioria das pessoas que julga que está a masturbar-se em excesso, normalmente não sofre de compulsão sexual” – que só se manifesta quando tem implicações no dia-a-dia de alguém (não dormir para se masturbar, chegar atrasado aos compromissos, estar no trabalho a pensar em ir embora para o fazer, ficar horas a fio).

A “vergonha associada ao comportamento” pode ter uma origem religiosa e martelou algumas ideias na cabeça de muitos. Provavelmente terás ouvido, enquanto crescias, que a masturbação fazia crescer pêlos nas mãos, causava cegueira ou provocava acne. Hoje, a “culpa religiosa” está a ganhar outra forma: “A manosfera [está a pintar] a masturbação como algo emasculante, mas a estratégia é bastante antiga: envergonhar para regular e controlar o comportamento sexual.”

Ainda assim, há factores a ter em conta, principalmente em relação ao consumo de pornografia. “A pornografia é irrealista e dá ideias completamente erradas do que é intimidade, sexo e prazer”, afirma Vânia Beliz. Mais ainda, “fazer depender a excitação de um determinado estímulo pode condicionar a resposta sexual.”

Leonor de Oliveira alerta para “a expectativa sobre o que é o sexo” que é criada pela pornografia. “Não só do que é esperado de si, mas das pessoas com quem se envolvem. Isto pode estar associado depois a problemas de disfunção ou insatisfação sexual. Se a pornografia for a única fonte de informação, vai ser má educação.”