Fazer exercícios regularmente nem sempre é suficiente para proteger o coração. Um conceito ainda pouco conhecido, chamado “sedentarismo silencioso”, vem ganhando atenção na comunidade científica por revelar um comportamento comum e potencialmente perigoso na rotina moderna.
De acordo com a cardiologista Fernanda Weiler, médica do Hospital Sírio-Libanês de Brasília e diretora do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida, o sedentarismo silencioso ocorre quando a pessoa pratica atividade física, mas passa a maior parte do dia em comportamento sedentário, como sentado ou deitado. “É cada vez mais comum encontrarmos pessoas que fazem uma hora de exercício por dia, mas passam 8, 10 ou até 12 horas sentadas trabalhando, no carro ou diante de telas. Esse padrão reduz significativamente os benefícios da atividade física e mantém riscos importantes para a saúde cardiovascular”, explica.
Dados recentes reforçam o alerta: uma meta-análise com mais de 1,4 milhão de pessoas, publicada na base científica PubMed, mostrou que indivíduos com maior tempo sedentário têm até 29% mais risco de desenvolver doenças cardiovasculares. O mesmo estudo aponta que cada hora adicional sentado pode aumentar esse risco em cerca de 5%.
Outras pesquisas, publicadas em periódicos como ScienceDirect e BMC Public Health, indicam que o risco começa a crescer a partir de cinco horas diárias em comportamento sedentário, algo comum na rotina atual, e se intensifica quando esse tempo ultrapassa 10 horas por dia.
“O mais preocupante é que esses efeitos acontecem independentemente da prática de atividade física. Ou seja, não basta ir à academia se o restante do dia é predominantemente sedentário”, alerta a médica.
Segundo Fernanda, o impacto do sedentarismo prolongado está diretamente ligado a alterações fisiológicas importantes. “Quando ficamos muito tempo sentados, há redução da circulação sanguínea, piora no metabolismo da glicose e dos lipídios, além de prejuízos na função vascular. É um conjunto de alterações silenciosas que, ao longo do tempo, aumentam o risco de infarto, AVC e outras doenças cardiovasculares”, explica. “Estimativas indicam que o comportamento sedentário já pode estar associado a mais de 10% dos eventos cardiovasculares”, ensina.
A boa notícia é que pequenas mudanças de hábito podem reduzir significativamente esses riscos. Segundo a especialista, o segredo está em “quebrar” os longos períodos sentado.
“Não se trata apenas de fazer exercício, mas de se manter em movimento ao longo do dia. O corpo precisa de estímulos frequentes”, reforça.
Confira algumas dicas práticas da cardiologista
Levante-se a cada 30 a 60 minutos: mesmo pausas curtas já ajudam a reativar a circulação
Movimente-se durante atividades rotineiras: fale ao telefone andando ou em pé
Prefira escadas ao elevador sempre que possível
Inclua pequenas caminhadas ao longo do dia: seja após refeições ou entre tarefas
Use lembretes para pausas ativas, especialmente em dias de trabalho intenso
Se possível, alterne entre sentado e em pé ao trabalhar
“Substituir apenas uma hora do tempo sentado por atividade leve pode reduzir o risco cardiovascular em até 20%”, diz a cardiologista, reforçando o impacto dessas mudanças simples.
Para a médica, é preciso mudar a forma como o movimento é encarado na rotina. “O ideal é combinar exercício estruturado com um estilo de vida menos sedentário. Não basta compensar horas sentado com uma ida à academia. O movimento precisa estar distribuído ao longo do dia”, destaca.
Com o avanço do trabalho remoto e o aumento do tempo em frente às telas, o alerta se torna ainda mais relevante. “Estamos diante de um novo desafio de saúde pública. Precisamos reaprender a nos movimentar no cotidiano”, avalia.