As gravações de alegadas conversas entre altas figuras do poder ucraniano próximas de Zelensky sugerem um possível envolvimento do Presidente no maior escândalo de corrupção durante o seu mandato, a implicar a empresa estatal Energoatom, segundo transcrições reveladas pelo jornal Ukrainska Pravda, nos dias 29 de abril e 1 de maio.
A suspeita — até aqui não formalizada e não provada — está relacionada com uma suposta conversa gravada durante o verão de 2025. entre Natalia e Timur Mindich — empresário ligado aos media, um dos fundadores e coproprietários da Kvartal 95, a produtora de entretenimento de enorme sucesso criada por Zelensky antes de entrar na política, que faz parte do círculo pessoal do Chefe de Estado ucraniano e uma das figuras envolvidas no escândalo, tendo fugido para Israel em novembro.
Na transcrição da gravação revelada pelo jornal, estariam a falar sobre uma visita de Zelensky à construção do condomínio Dynasty, em Kozyn, perto de Kiev, que também está no centro da polémica, por alegadamente estar a ser financiada com dinheiro desviado da Energoatom, a grande empresa estatal de energia ucraniana.
As casas desse condomínio estariam destinadas a quatro pessoas: Andriy — possível referência a Andriy Yermak, ex-chefe de gabinete de Zelensky e suspeito no caso da Energoatom —, Chernyshov — alegadamente o ex-primeiro-ministro, Oleksii Chernyshov —, Timur Mindich, e “Vova” — alcunha usada para o nome “Volodymyr” e interpretado como uma referência a Zelensky, segundo a Ukrainska Pravda.
A conversa diria respeito a uma cerca que estaria a ser construída entre a casa de Mindich e de “Vova”. “[O empreiteiro] abandonou [o trabalho] entre ti [Mindich] e o Vova” […] saiu porque [o Vova] não pagou salários durante dois meses”, alega Natalia. No entanto, as transcrições não fazem uma referência direta ao Presidente. Mesmo que nada seja provado em relação ao envolvimento direto de Zelensky, vários analistas ouvidos pela imprensa ucraniana não deixam de apontar os efeitos negativos que o caso pode ter numa eventual recandidatura pós-guerra se se chegar à conclusão de que o Presidente tinha conhecimento do que se passava.
Além disso, as gravações também relatam uma alegada conversa entre Mindich e o então ministro da Defesa, Rustem Umerov, em que eram discutidos contratos de defesa com a empresa militar Fire Point — também envolvida num escândalo de corrupção — e uma possível venda de 33% da companhia a investidores estrangeiros.
Parte da venda seria paga a pronto, ou seja, “dinheiro que iria diretamente para os acionistas, entre os quais poderá estar Timur Mindich, refere a Ukrainska Pravda.
Em novembro de 2025, as agências anti-corrupção NABU e SAPO revelaram o escândalo de corrupção na empresa estatal ucraniana Energoatom, responsável pela energia nuclear no país, tendo o Gabinete Anti-Corrupção acusado oito pessoas de suborno, enriquecimento ilícito, peculato e desvio de cerca de 100 milhões de dólares (85 mlhões de euros).
Na sequência das acusações, Andriy Yermak, então chefe de gabinete de Zelensky, apresentou a demissão, com dois acusados (Timur Mindich e Alexander Zuckerman) a fugirem para Israel, estando atualmente a ser avaliado os seus processos de extradição, de acordo com a Ukrainska Pravda.
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Miguel Feraso Cabral