Infeciologista Tiago Marques, da Faculdade de Medicina de Lisboa, explica as diferenças entre os hantavírus da Europa e da América

O médico Tiago Marques não perde um minuto de sono a pensar no hantavírus. “Não temos qualquer razão para temermos uma pandemia”, garante este assistente hospitalar, que é também professor da cadeira de Doenças Infeciosas da Faculdade de Medicina de Lisboa. 

Ao fim de 15 anos de experiência no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, continuam a sobrar-lhe dedos da mão para contabilizar as vezes que diagnosticou este tipo de infeção. “Aparece-nos um caso de cinco em cinco anos”, esclarece. Os hantavírus endémicos na Europa são muito diferentes das estirpes americanas, como a que se manifestou no navio cruzeiro saído da Argentina. “Não há registo de transmissão entre humanos no velho mundo”, salienta o especialista. Sem essas cadeias de contágio, o cenário de pandemia é um absurdo.

As infeções europeias tendem a provocar sobretudo febre hemorrágica com síndrome renal, e não os quadros pulmonares graves associados aos hantavírus americanos. Também matam, mas menos. “Está descrita uma mortalidade de 10%, mas deve ser inferior, porque os casos sem sintomas graves passam muitas vezes sem ser detetados, ou são confundidos com outras doenças”, descreve o infeciologista.

Cuidados no campo

Os sintomas têm muitas semelhanças com a leptospirose, também conhecida como “febre dos ratos”. Esta doença também não é tão rara: são declarados dezenas de casos por ano em Portugal. Os excrementos — fezes e urina — de roedores do campo transmitem aos seres humanos tanto a bactéria Leptospira como os hantavírus.

Quem faz limpezas no campo, por exemplo em palheiros, deve precaver-se: usando máscaras de proteção respiratória com filtro FPP2 e lixívia sobre as superfícies, antes mesmo do início dos trabalhos, para inativar possíveis agentes patogénicos.

Em países como a Argentina e o Chile existe suspeita e evidência limitada de transmissão entre humanos, fenómeno descrito desde a década de 1990. Mesmo assim, isso não pressupõe qualquer risco pandémico. O problema de saúde pública é para os passageiros do navio: a incubação pode durar 45 dias.