Richard A. Brooks / AFP

Um psiquiatra italiano radicado no Japão está a testar uma forma inovadora de combater a depressão: sessões de aconselhamento psicológico em que o terapeuta surge no ecrã sob a forma de uma personagem de anime, com voz digitalmente alterada.
Quando era adolescente e tinha dificuldades em integrar-se na vida da Sicília rural, o psiquiatra Francesco Panto encontrou refúgio no anime, onde descobriu personagens com as quais se identificava e que representavam o tipo de homem que queria ser.
Hoje a viver no Japão, Panto acredita que o anime pode beneficiar outras pessoas e está a testar se poderá ser utilizado como método terapêutico, em especial para quem teria dificuldade em pedir ajuda.
“O recurso à manga e ao anime apoiou-me muito… foram ferramentas de suporte emocional muito importantes”, disse Panto à AFP.
“Crescer em Itália, na Sicília, havia estereótipos muito fortes em relação ao género e à autoexpressão. Mas quando tinha 12 ou 13 anos comecei a jogar um jogo chamado ‘Final Fantasy‘… e .e eu identificava-me com os protagonistas. Eram tão masculinos e fixes, mas à sua própria maneira“.
O estudo-piloto de seis meses de Panto sobre “aconselhamento baseado em personagens”, na Universidade Municipal de Yokohama, terminou em março.
No âmbito do ensaio, Panto e a sua equipa recrutaram 20 pessoas com idades compreendidas entre os 18 e os 29 anos com sintomas de depressão e proporcionaram-lhes sessões de aconselhamento online, conduzidas por um psicólogo que aparecia no ecrã sob a forma de um avatar de anime com a voz digitalmente alterada.
Panto acredita que o “filtro da fantasia” pode ajudar a pôr as pessoas à vontade e a reconhecer os seus problemas — e espera que os resultados do ensaio venham confirmar esta teoria.
Desde uma figura estável e de confiança com “energia maternal” que empunha uma espingarda de assalto, até um personagem masculino emocionalmente perspicaz com aspeto de “príncipe” e que enverga uma capa, foram criadas especificamente para o estudo seis personagens diferentes.
Cada uma baseia-se num arquétipo específico da manga japonesa, tendo os participantes no ensaio liberdade para escolher entre elas. “Tentei infundir em cada personagem uma luta mental específica. Uma das personagens criadas chama-se Kuroto Nagi. É afetada por traços de personalidade bipolar“, disse Panto.
Outras debatem-se com perturbação de stress pós-traumático ou perturbações de ansiedade, ou têm problemas relacionados com o consumo de álcool.
Mas a ideia é que os avatares sejam “divertidos”, explicou Panto, e embora o psicólogo conte a história da sua personagem no início da sessão, foram instruídos a não tornar os problemas de saúde mental demasiado evidentes.
Um participante no ensaio, de 24 anos, explicou como foi atraído ao estudo pela descrição de uma das personagens, que alegadamente estava “à procura da verdadeira força“.
“Fez-me sentir que poderia ajudar-me a aproximar da resposta para os meus próprios problemas”, disse o participante, fã de anime e criador de jogos, que não pode ser identificado pelo nome ao abrigo das regras do ensaio.
Vontade de viver
O ensaio de fase um, que monitorizou as frequências cardíacas e o sono dos participantes, destina-se principalmente a testar se a terapia com anime é viável e se este tipo de tratamento pode reduzir os sintomas de depressão.
Panto está também a ponderar se a terapia poderá ser prestada com recurso à inteligência artificial, sem a mediação de um psicólogo real.
O projeto de investigação é um de muitos que procuram encontrar soluções para os desafios de saúde mental no Japão, incluindo o “ikizurasa“, um termo que designa as pessoas que sentem “dificuldade em viver, dificuldade em sobreviver na sociedade”, disse Mio Ishii, professora auxiliar que co-lidera o projeto.
“Há muitos jovens que não conseguem ir à escola ou continuar a trabalhar. Por isso, o nosso objetivo é dar-lhes... novas opções para recuperar das suas dificuldades”, afirmou, acrescentando que ainda existe um enorme estigma no Japão associado ao facto de se pedir ajuda.
Jesus Maya, especialista em terapia familiar na Universidade de Sevilha e que não esteve envolvido no ensaio, diz que a utilização do anime durante as sessões pode ser realmente útil. “Pode facilitar a expressão de emoções… e a identificação e a comunicação entre o paciente e o terapeuta”.
De acordo com as regras do estudo, o participante de 24 anos, cujas séries de anime favoritas incluem atualmente “The End of Evangelion” e “Girls Band Cry”, não pode comentar o próprio ensaio.
Ainda assim, disse que o anime lhe havia dado a “vontade de viver, ao ver personagens cheias de vida enquanto trabalham arduamente para alcançar os seus sonhos”.
Mio Ishii espera que a terapia possa ajudar pessoas de todas as idades em todo o mundo. “Porque normalmente as pessoas têm estigmas e barreiras psicológicas que as impedem de pedir ajuda relativamente à sua saúde mental”, disse. “Mas o anime ou a tecnologia podem atenuá-los“.