Vicente Conculini, Yamandu Martínez e Miguel Silio saíram de Gualeguaychú, da Argentina, a 16 de agosto de 2025. Tinham um único destino: os Estados Unidos da América, em particular a cidade de Kansas, onde a sua seleção se vai concentrar e fazer o primeiro jogo do Mundial. Fizeram a viagem de bicicleta. Foram mais de 16 mil quilómetros a pedalar até chegarem ao destino neste início de junho. Não têm bilhetes para qualquer dos jogos da equipa de Messi. “Tivemos azar. Algumas vezes, quando abria janelas de venda de bilhetes, estávamos a pedalar e não tínhamos ligação [à internet]”, declarou Conculini à Front Office Sports, acrescentando: “Agora os preços são tão altos, tão elevados, temos de esperar um pouco, pode ser que os vendedores desçam o preço”, assumindo a recusa de pagar valores inflacionados.

Foram quase 10 meses e 16 mil quilómetros, mas o trio tentou a sua sorte (pelo menos já conseguiu ser recebido pelo selecionador da Argentina, Lionel Scaloni, e a sua equipa técnica e pelo presidente da federação Claudio “Chiqui” Tapia), para já sem sucesso, de assistir a um jogo da “alviceleste”. A Argentina é a atual detentora do título mundial e começa a tentativa de revalidação a 16 de junho (já será madrugada de 17 de junho em Portugal) no jogo contra a Argélia, no grupo J. Há bilhetes no site da FIFA para este jogo a 625 dólares (ao câmbio de terça-feira, 9 de junho, são 542 euros) na categoria 2 e a 2.310 dólares (2.000 euros) na categoria 1. Na plataforma de revenda, da própria FIFA, os preços mais baixos são de 598 dólares (para pouca visibilidade) ou de 483 dólares (418 euros) para mobilidade reduzida.

A Argentina nem é a seleção que tem a média de revenda mais elevada. Está na oitava posição, segundo dados compilados pela Ticketdata. O preço de entrada médio na revenda para esta equipa está nos 1.027 dólares (891 euros), abaixo do valor médio do México, Portugal, Brasil, Colômbia, África do Sul, Escócia e Coreia do Sul. Segundo estes dados, a média de valores na revenda está em 1.530 dólares (1.326 euros) no caso português e nos 2.172 dólares (1.883 euros) para o México, país que, com os Estados Unidos da América e Canadá, organiza o Mundial de 2026.

O preço dos bilhetes tem sido uma das polémicas instaladas no Mundial que começa a 11 de junho. Tudo porque a FIFA mudou as regras, que lhe dão mais dinheiro. Há já várias queixas e investigações a decorrer. O preço dos bilhetes para o Mundial de 2026 disparou. Assim que os pôs à venda, a FIFA pediu, à cabeça, um montante superior ao que tinha oferecido em mundiais anteriores e introduziu, em alguns momentos, critérios de variação dos valores consoante a procura. Mas isso não bastou.

A organizadora do Mundial lançou uma plataforma de revenda de bilhetes, onde vai buscar 15% do valor ao comprador e outros 15% ao vendedor. Nesta plataforma, neste momento, estão a ser pedidos valores para a final desde 8.567 dólares (7.429 euros) e até aos 11,5 milhões de dólares (9,97 milhões de euros). Um bilhete vendido a este valor significaria um “bónus” para a FIFA de 3,45 milhões de dólares (3 milhões de euros). Gianni Infantino, presidente da FIFA, quando confrontado com um valor de 2 milhões que, em maio, estava a ser pedido para a final, realçou que o facto de ser colocado à venda por esse valor não significava que alguém o compre. “E se alguém comprar um bilhete para a final por 2 milhões, eu vou, pessoalmente, entregar um cachorro quente e uma cola para garantir que tem uma grande experiência”, declarou, citado pela BBC.

A questão é, agora, a de saber até onde chegarão os preços e até que ponto os estádios estarão preenchidos. A poucas horas de começar o grande evento do futebol, já se está a assistir a uma correção para alguns jogos — apontando-se o dedo, também neste caso, à FIFA.

Comprar bilhetes para o Mundial requer tempo, paciência e dinheiro. Tempo para estudar o processo, paciência para tentar nas várias fases disponíveis e dinheiro porque não é barato. Tudo está centralizado na FIFA — a poderosa Fédération Internationale de Football Association — que é a entidade de governação do futebol a nível mundial. O Mundial de 2026 é organizado por este organismo, que escolhe a localização e, claro, decide (e vende) os preços dos bilhetes.

“O maior evento que a humanidade alguma vez viu”, como caracterizou Gianni Infantino, presidente da FIFA, terá também o maior orçamento que alguma vez foi visto nos mundiais de futebol. De acordo com o orçamentado pela FIFA, o ciclo de quatro anos deste mundial vai resultar em receitas de 13 mil milhões de dólares (cerca de 11,3 mil milhões de euros), com despesas estimadas de 12,9 mil milhões de dólares (11 mil milhões de euros) Os Jogos Olímpicos de Paris de 2024 geraram 4,48 mil milhões de euros e o ciclo do Qatar 2024 gerou 6,6 mil milhões de euros. O Mundial de 2026 assume mais 72% de receitas do que o Qatar 2024. Só por conta dos bilhetes e direitos de hospitalidade, o ciclo garantirá receitas de mais de 3 mil milhões de dólares (2,6 mil milhões de euros), de acordo com dados da FIFA.

O Mundial de 2026 acontecerá em três países — Estados Unidos da América, México e Canadá –, de 11 de junho a 19 de julho, e terá mais 16 equipas do que o mundial do Qatar. Ao todo será disputado por 48 países, num total de 104 jogos (face aos 64 do mundial anterior). 

Muito mais que o preço dos bilhetes

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Os bilhetes para os jogos são apenas uma fração do que um adepto que queira ir ao Mundial, que apresenta um grande “desafio logístico” pelo facto de estar espalhado por três países e várias cidades.

Portugal, por exemplo, na fase de grupos joga duas vezes em Houston e uma vez em Miami. “Se vencer o grupo e fizer um percurso longo, um adepto que tente acompanhar a seleção poderá depois ter pela frente Kansas City, Vancouver, novamente Kansas City, Atlanta e, finalmente, Nova Iorque. Trata-se de um percurso potencial por seis cidades e três países em cerca de cinco semanas”, repara Övünç Yılmaz, professor na Leeds School of Business, da Universidade de Colorado, que recorda: “A distância de Miami a Vancouver é de aproximadamente 4.500 quilómetros (ainda maior do que a distância de Lisboa a Moscovo, que é de cerca de 3.900 quilómetros). Portanto, um itinerário ‘norte-americano’ para o Campeonato do Mundo pode envolver distâncias superiores a atravessar grande parte da Europa”.

Além do problema de planeamento, “organizar hotéis, voos, transporte local e estacionamento sob essa incerteza pode ser extremamente dispendioso”, acrescenta ao Observador. “Para muitos adeptos, os hotéis e as reservas de última hora podem acabar por custar mais do que os próprios bilhetes”.

E assume especial preocupação com os preços do alojamento nos dias de jogo específicos nas cidades anfitriãs, além do preço dos voos.

Tal como acontece com os outros países, 8% da capacidade dos estádios onde se realizam os jogos da seleção nacional é atribuído à Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Toda a receita é, garantiu ao Observador fonte oficial da FPF, para a FIFA, a quem coube a decisão sobre os preços dos bilhetes. A FPF garante ainda que não receberá qualquer percentagem da comissão que a FIFA cobra na revenda ao comprador e ao vendedor.

De resto, a FPF recusa comentar os valores a que os bilhetes estão a ser comercializados. Também o Governo, confrontado com os preços e o impacto que pode ter na perceção de desporto inclusivo, recusa comentar. O gabinete do Ministério da Cultura, Juventude e Desporto, liderado por Margarida Balseiro Lopes, limita-se a dizer ao Observador que “a definição dos preços dos bilhetes é da exclusiva responsabilidade das entidades organizadoras”.

Quando, em dezembro, a FPF anunciou o início da venda de bilhetes para o Mundial, indicava-se o valor para três categorias de lugares: 700 dólares (cerca de 597 euros, na altura, que corresponde ao câmbio atual a 600 euros) na categoria 1; 500 dólares (434 euros ao câmbio atual) na categoria 2; e 265 dólares (230 euros) na categoria 3, onde ficarão os “animadores Portugal+”. Os adeptos que quisessem bilhetes, já teriam de ter feito um registo na plataforma Portugal+ e ficariam à espera, até fevereiro, para saber se tinham sido “selecionados”. Os bilhetes pedidos foram mais do que os disponíveis. Nessa altura, a FIFA anunciou e colocou à venda bilhetes a 60 dólares (52 euros ao câmbio atual), mas que chegaram em números muito limitados — a FIFA diz que disponibilizou por cada jogo 1.000 bilhetes a este preço, “o que perfaz um total aproximado de 104.000 bilhetes para o torneio”.