Um novo estudo confirma que a introdução precoce do vovo na alimentação reduz a probabilidade de alergia na infância
Antigamente, aconselhava-se os pais a manterem os alimentos alergénicos, como os ovos, longe dos bebés, especialmente se houvesse antecedentes de alergias na família. Mas, com base em evidências recentes, o conselho é agora quase o oposto – e uma nova investigação sugere que esta mudança nas orientações está a dar resultado.
Após a mudança drástica nas orientações para deixar de manter os alimentos alergénicos afastados dos bebés até aos 1 a 3 anos de idade e, em vez disso, introduzi-los logo aos 6 meses de idade, a prevalência da alergia ao ovo entre as crianças diminuiu mais de 17%, indica um novo estudo publicado na revista JAMA Pediatrics.
“Estas conclusões deixam claro que as alterações nas orientações, quando baseadas em evidências de alta qualidade e quando amplamente adotadas, podem levar a reduções significativas na prevalência de alergias alimentares”, explica por e-mail Jennifer Koplin, líder do grupo de alergias infantis e epidemiologia no Centro de Investigação em Saúde Infantil da Universidade de Queensland e autora principal do novo estudo.
O estudo, realizado na Austrália, vem reforçar o crescente conjunto de provas que sustentam que as orientações mais recentes não só são consideradas seguras, como também estão associadas a uma diminuição significativa das alergias ao ovo entre as crianças. As conclusões dão alguma tranquilidade aos pais que ainda possam estar indecisos sobre quando introduzir alimentos potencialmente alergénicos na alimentação dos seus bebés.
“Tanto quanto sabemos, este é o primeiro estudo a demonstrar uma redução da alergia ao ovo na população após a introdução das novas diretrizes de alimentação infantil”, afirma Koplin.
Desvendando o enigma da alergia
Nos Estados Unidos, as recomendações para a prevenção de alergias alimentares entre crianças evoluíram drasticamente nas últimas décadas, deixando alguns pais a questionarem-se em que orientações deveriam confiar e se seguir os conselhos mais recentes seria realmente seguro.
Em 2000, a Academia Americana de Pediatria (AAP) recomendava que os bebés com alto risco de alergias, incluindo aqueles com eczema ou histórico familiar de alergias alimentares, evitassem os ovos até aos 2 anos de idade. O pensamento na altura era que adiar a exposição poderia ajudar a prevenir reações alérgicas.
Mas, à medida que surgiram mais estudos, essa orientação começou a mudar. Em 2008, a AAP atualizou as suas orientações para apoiar a introdução de ovos aos 6 meses de idade, afirmando que há “poucas evidências” de que adiar a introdução de alimentos alergénicos prevenisse alergias.
A investigação deu cada vez mais razão a essa mudança: a introdução precoce de ovos parecia reduzir o risco de desenvolver uma alergia ao ovo.
A nível mundial, as diretrizes para a prevenção de alergias também foram atualizadas. Na Austrália, as diretrizes de alimentação infantil para a prevenção de alergias foram atualizadas em 2016 para recomendar a introdução de ovos e outros alérgenos alimentares no primeiro ano de vida, com o objetivo de reduzir o risco de alergia alimentar.
Não é invulgar na medicina que as orientações sejam alteradas – mas “a lição que devemos retirar desta história não é apenas que a ciência se autocorrige. É que o erro original era evitável”, escrevem Aaron Carroll, da organização sem fins lucrativos AcademyHealth, e Ron Keren, do Children’s Hospital of Philadelphia, no editorial que acompanha o novo estudo publicado na JAMA Pediatrics.
“Foram emitidas recomendações que não estavam fundamentadas em evidências científicas, e as famílias viveram com as consequências disso. Devemos às famílias uma explicação honesta sobre o que se passou”, escrevem Carroll e Keren no editorial.
“E devemos à próxima geração de pacientes mantermos a fasquia mais elevada — garantindo uma classificação das evidências científicas para que as famílias compreendam o grau de certeza por trás de uma recomendação, a reavaliação obrigatória em intervalos regulares e o compromisso de financiar os ensaios que possam preencher lacunas de evidência antes da emissão de orientações, em vez de isso acontecer décadas depois”, escrevem. “Quando não dispomos de provas para sustentar uma recomendação, devemos dizê-lo, de forma clara e sem constrangimento, em vez de preencher o silêncio com conselhos confiantes que acabam por se revelar errados.”
O novo estudo está em consonância com investigações recentes que analisam como a mudança nas orientações relativas à alergia ao amendoim levou a uma redução da prevalência desta alergia entre as crianças. Um estudo distinto, publicado na revista Pediatrics no ano passado, revelou que as taxas de alergia ao amendoim diminuíram após a publicação de diretrizes atualizadas.
Ovos mais cedo, menos alergias
O novo estudo incluiu dados sobre mais de 7.000 bebés com idades entre os 11 e os 15 meses que realizaram consultas de vacinação em centros de saúde em Melbourne, na Austrália. Os bebés representavam dois grupos: alguns tiveram consultas entre 2007 e 2011, antes da atualização das diretrizes na Austrália, e os outros tiveram consultas entre 2018 e 2019, após a atualização.
Para ambos os grupos – com consultas antes e depois da atualização – os pais preencheram questionários e os bebés foram testados para alergia ao ovo. Os investigadores analisaram então cada grupo, observando atentamente com que idade os ovos foram introduzidos na alimentação de cada bebé e quantos foram diagnosticados com alergia ao ovo.

A alergia ao ovo provoca uma reação exagerada do sistema imunitário às proteínas que se encontram na clara ou na gema do ovo (Foto: krblokhin/iStockphoto/Getty Images via CNN Newsource)
“Iniciámos este estudo na esperança de observar uma redução nas alergias ao ovo e a outros alimentos após a introdução das diretrizes de 2016”, explica Koplin. “No entanto, não sabíamos ao certo em que medida os pais teriam adotado estas recomendações, nem se isso se traduziria numa redução mensurável da alergia alimentar”, acrescenta. “Por isso, ficámos animados ao constatar que a maioria dos pais tinha seguido as novas diretrizes e, mais importante ainda, que isso estava associado a uma clara redução da alergia ao ovo”.
Os dados revelaram que a proporção de bebés a quem foram introduzidos ovos até aos 6 meses de idade mais do que duplicou, passando de cerca de 25% no grupo de 2007-2011, antes da alteração das orientações, para cerca de 57% no grupo de 2018-2019, após a alteração das orientações.
Os investigadores também descobriram que a prevalência da alergia ao ovo diminuiu de 9,2% no grupo de 2007-2011, antes da alteração das orientações, para 7,6% no grupo de 2018-2019, após a alteração das orientações – o que corresponde a uma diminuição relativa de 17,7%, de acordo com o estudo.
O eczema é um fator de risco conhecido para o desenvolvimento de alergias alimentares e, quando os investigadores analisaram os dados especificamente em bebés com eczema precoce, surgiram conclusões semelhantes. Nos bebés com eczema precoce, a prevalência da alergia ao ovo diminuiu de 34,6% para 21,9%, revelou o estudo.
“É emocionante ver evidências na população, no mundo real, a apoiar a introdução precoce de alérgenos”, afirma, por email, Sung Poblete, CEO da organização sem fins lucrativos Food Allergy Research & Education, que não participou no estudo. “A recomendação de introduzir alimentos alergénicos precocemente e com frequência tem sido amplamente adotada, e este estudo fornece evidências de que estas práticas se traduzem em benefícios significativos para a prevenção da alergia ao ovo”, conclui Poblete.
Alergia ao ovo nos EUA
Embora o novo estudo tenha sido realizado na Austrália, as conclusões podem também ser úteis nos Estados Unidos.
“Nos Estados Unidos, organismos profissionais como o American College of Allergy, Asthma and Immunology e a American Academy of Allergy, Asthma & Immunology recomendam igualmente a introdução do ovo a partir dos 6 meses de idade. Tendo isto em conta, esperaríamos uma redução semelhante da alergia ao ovo nos EUA”, diz Koplin.
No entanto, os investigadores observaram que, nos EUA, as taxas de introdução precoce do ovo permanecem relativamente baixas em comparação com a Austrália – com apenas 15,5% dos bebés nos EUA a terem introduzido ovo na sua alimentação antes dos 7 meses de idade em 2021, em comparação com 57% no grupo de 2018-2019 do estudo, mesmo após a alteração das orientações.
A alergia ao ovo tornou-se uma das alergias mais comuns nas crianças. Nos EUA, estima-se que afete cerca de 1,3% das crianças com menos de 5 anos. Aos 16 anos, a maioria das crianças tende a superar a alergia ao ovo e, na idade adulta, a alergia é menos comum.
Nas pessoas com alergia ao ovo, o sistema imunitário reage de forma exagerada às proteínas encontradas na clara ou na gema do ovo. Isto pode causar sintomas alérgicos graves, incluindo urticária, sintomas respiratórios e, por vezes, anafilaxia, uma reação alérgica com risco de vida que pode provocar o estreitamento das vias respiratórias.
A introdução precoce é útil para reduzir o risco de alergia porque “o sistema imunitário do corpo está na origem da alergia”, explica Scott Sicherer, professor de pediatria e diretor do Jaffe Food Allergy Institute da Icahn School of Medicine do Mount Sinai, em Nova Iorque, num e-mail.
“O sistema imunitário está pronto para aprender sobre os alimentos de uma forma benéfica e normal quando estes são ingeridos e chegam ao intestino. Dessa forma, o sistema imunitário aprende normalmente a reconhecer e a aceitar o alimento. Mas se o sistema imunitário do intestino não estiver a ver o alimento, não está a aprender”, explica Sicherer.
“Por outro lado, se o alimento estiver perto do bebé, faz parte do ambiente e pode estar a tocar na pele do bebé e a ser inalado através do ar. A exposição à pele ou por inalação pode induzir o sistema imunitário a pensar que o alimento é um invasor e deve ser atacado”, diz. “Em particular, os bebés com eczema têm uma barreira cutânea deficiente e têm inflamação da pele e, por isso, se não consumirem o alimento precocemente, as células imunitárias da pele podem interpretar esse alimento de forma errada.”
Como introduzir os ovos na alimentação dos bebés
A conclusão do novo estudo de que mais pessoas introduziram o ovo na alimentação dos seus bebés até aos seis meses após a alteração das orientações revela como as diretrizes atualizadas podem “ter um impacto real”, diz Elizabeth Lippner, médica assistente na divisão de alergologia e imunologia do Lurie’s Children’s Hospital de Chicago, que não participou no estudo.
“Esperemos que isto seja um sinal de que, da mesma forma, no nosso país e entre as populações que trato, as pessoas também vão dar ouvidos a estas recomendações e seguir estas tendências; e estamos, de facto, a constatar isso nas nossas clínicas”, afirma Lippner a respeito dos Estados Unidos.
Acrescenta ainda que, embora os médicos recomendem que as crianças comecem a comer ovos desde cedo, os pais devem certificar-se de que os seus filhos estão prontos para ingerir esse alimento com segurança, por exemplo, garantindo que conseguem controlar a cabeça e o pescoço, que abrem a boca quando lhes é oferecida comida, que se sentam sozinhos ou com apoio, e que levam objetos à boca e demonstram sinais de deglutição.
Os pais também devem dedicar algum tempo a observar as crianças para detetar quaisquer sintomas de alergia. Além disso, é importante falar com o pediatra do seu bebé sobre quando e como introduzir alimentos sólidos.
SINAIS DE QUE O SEU FILHO ESTÁ PRONTO PARA COMEÇAR A COMER ALIMENTOS QUE NÃO SEJAM LEITE MATERNO OU FÓRMULA INFANTIL
- Senta-se sozinho ou com apoio.
- Consegue controlar a cabeça e o pescoço.
- Abre a boca quando lhe oferecem comida.
- Engole a comida em vez de a empurrar para o queixo.
- Leva objetos à boca.
- Tenta agarrar objetos pequenos, como brinquedos ou comida.
- Transfere a comida da parte da frente para a parte de trás da língua para engolir.
A introdução de alimentos antes dos 4 meses não é recomendada, de acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA.
“Quer se trate de ovo, amendoim ou outros alérgenos comuns, um bebé tem de estar ‘pronto’ em termos de desenvolvimento para lidar com algo que não sejam líquidos, e devem ser usados alimentos seguros para bebés, incluindo alérgenos’, aconselha Sicherer, autor de “The Complete Guide to Food Allergies in Adults and Children” (O Guia Completo sobre Alergias Alimentares em Adultos e Crianças), que não participou no novo estudo.
“Os alérgenos não são os típicos ‘primeiros alimentos’; os mais comuns são os cereais, as frutas e os legumes. No entanto, assim que o bebé demonstrar que consegue lidar com alimentos sólidos, como purés, é possível incorporar ovos, amendoim e outros alérgenos, desde que sejam preparados com cuidado”, explica Sicherer.
“Por exemplo, a manteiga de amendoim representa um risco de asfixia, mas pode ser misturada com compota de maçã ou cereais de aveia. O ovo tem de ser bem cozinhado”, alerta, “e depois bem esmagado e transformado em puré, para adicionar a alimentos como a compota de maçã ou os cereais para bebés, de modo a ter pedaços que possam representar um risco de asfixia”.