A epidemia silenciosa de solidão avança no Brasil e no mundo, ao mesmo tempo em que os níveis de depressão, raiva, ansiedade e estresse aumentaram ao longo dos últimos dez anos.
É o que constata o psiquiatra Gustavo Medeiros que estudou depressão resistente e transtornos de humor como docente na Universidade de Maryland e pesquisador na Escola de Medicina da Johns Hopkins University, centros de referência em saúde mental nos Estados Unidos.
“Nós estamos, coletivamente, vivendo na era da ‘sociedade do pavio curto'”, constata o especialista, diante da percepção generalizada de que que as pessoas explodem com facilidade no dia a dia, buzinam mais agressivamente no trânsito ou destilam fúria desproporcional nas redes sociais.
Viver em São Paulo, a cidade mais populosa do país, é também, enfrentar a dura realidade de habitar a metrópole mais solitária da América Latina.
Fenômenos que, para além do drama existencial dos indivíduos, deságuam em uma severa crise de saúde pública, na visão de Medeiros.
Para ele, o envelhecimento acelerado da população, a consolidação do trabalho remoto, a hiperconectividade digital e a consequente perda de vínculos presenciais primários redesenham o mapa das patologias mentais no século 21.
Os contornos globais dessa crise foram mensurados em um relatório da Comissão sobre Conexão Social da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicado em junho de 2025.
A depressão e o isolamento social afetam uma em cada seis pessoas no mundo e estão associados a cerca de 870 mil mortes por ano, segundo o estudo.
Enfrentamos uma epidemia silenciosa de solidão que mata 100 pessoas por hora no mundo
O relatório destaca os graves impactos na saúde, no bem-estar e na sociedade, ao sugerir ações urgentes e práticas para fortalecer a conexão social, além de conclamar formuladores de políticas, pesquisadores e todos os setores a tratarem a saúde social com a mesma urgência que a saúde física e mental.
“Enfrentamos uma epidemia silenciosa que mata 100 pessoas por hora no mundo”, alerta Medeiros, ao enumerar complicações médicas, físicas e psíquicas da depressão e de outros transtornos de humor.
“Alguns problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade, uso de álcool e drogas, estão subindo. Levantamentos recentes mostram que de 25% a 30% da população americana vai ter depressão em algum momento na vida”, explica o psiquiatra.
É precisamente nesse cenário complexo que se insere o trabalho do brasileiro. Após passar uma década nos Estados Unidos, onde se consolidou como um dos especialistas mais requisitados na área de saúde mental, o médico retornou ao Brasil trazendo a bagagem teórica e prática da chamada “psiquiatria de precisão” para tratar depressão crônica.
Dois pacientes diagnosticados com depressão podem manifestar a patologia por caminhos biológicos e vivenciais totalmente distintos: enquanto um sofre de insônia severa, agitação e ansiedade, o outro experimenta letargia profunda.
A essência da investigação clínica de Medeiros reside em decifrar a heterogeneidade da doença.
“Por que duas pessoas com o mesmo diagnóstico de depressão reagem de formas completamente diferente? Um paciente dorme demais e passa o dia na cama; o outro não consegue dormir e manifesta uma ansiedade extrema. Não faz sentido esperar que respondam à mesma medicação”, pontua.
O pilar da psiquiatria de precisão defendida pelo médico rejeita a abordagem padronizada do tipo “one size fits all” (tamanho único, na moda, ou tratamento padronizado, na saúde).
A terapêutica moderna, portanto, deve buscar marcadores biológicos e detalhamento clínico específico, expandindo a receita para muito além da farmacologia, defende o especialista que estudou o uso de cetamina e combinações farmacológicas avançadas.
No modelo interdisciplinar de Medeiros, são prescritos desde treinamentos formais de socialização, a atividades físicas para combater o sedentarismo e tarefas práticas de reinserção urbana, como ir ao cinema ou participar de um clube de leitura para forçar o paciente a sair do casulo doméstico.
De volta ao Brasil, o psiquiatra graduado pela USP encontrou no país um terreno fértil para a segunda vertente do seu trabalho, que é a raiva. Aqui se deparou com um “coquetel” de tensões crônicas que podem levar à ira.
“A sensação permanente de insegurança e a impotência geram muita raiva. No consultório vejo um descontentamento com as instituições, a percepção aguda da desigualdade social e de uma polarização política violenta. Tudo isso alimenta um estado constante de irritação”, avalia Medeiros.
A esse cenário macro, somam-se outros fatores de estresse do cotidiano, como o aumento de diagnósticos de burnout, a exposição contínua à violência urbana e o caos do trânsito nas grandes metrópoles brasileiras.
“Está muito bem documentado que os níveis de raiva hoje são maiores do que há dez anos, manifestando-se tanto na hostilidade externa quanto naquela irritação interna corrosiva”, constata o psiquiatra.
Os contornos dessa irritabilidade global foram consolidados no relatório “State of the World’s Emotional Health”, de 2025, conduzido pelo instituto Gallup.
Ao monitorar anualmente o pulso emocional de mais de 140 países, a pesquisa concluiu que, embora o mundo tenha ensaiado uma recuperação de certos indicadores após o ápice da pandemia, os índices de raiva, tristeza, preocupação e estresse permanecem estagnados em patamares superiores aos observados uma década atrás.
Do ponto de vista neurológico, há uma razão pela qual o estresse urbano se converte tão rapidamente em fúria. “A estrutura cerebral intimamente ligada à raiva é exatamente a mesma responsável pelas respostas de ansiedade e medo”, diz Medeiros.
Quando o indivíduo é submetido a ameaças ou frustrações, essa central de alarme do cérebro opera em hiperatividade, alterando a química cerebral e reduzindo a capacidade do córtex pré-frontal de exercer o controle inibitório.
Quando essa linha é cruzada de forma descontrolada, a raiva deixa de ser uma mera resposta emocional para se tornar uma patologia clínica. O diagnóstico mais comum associado a esse comportamento é o Transtorno Intermitente Explosivo (TIE).
Uma análise global publicada na plataforma PubMed, que avaliou 29 estudos com mais de 182 mil participantes em 17 países, revelou que o TIE está em ascensão, afetando 5,1% da população ao longo da vida.
O transtorno é caracterizado por episódios súbitos de agressividade verbal ou física desproporcionais ao motivo gerador.
“A questão central é saber diferenciar a raiva construtiva da destrutiva”, explica o psiquiatra. “O paciente chega ao consultório quando a esposa ameaça o divórcio devido às explosões ou o descontrole leva a perdas concretas, como demissão.”
Para além do sofrimento emocional evidente causado tanto pela depressão resistente quanto pela raiva destrutiva, a ciência começa a decodificar como esses transtornos afetam o cérebro e o corpo.
Medeiros cita um estudo de Harvard que avaliou quais fatores mais se relacionam com a felicidade. O principal é ter relações sociais de qualidade. “Seu pneu furou às 3h da manhã para quem você liga? Teve um problema de saúde, quem que vai ficar com você no hospital?”, questiona o psiquiatra.
Fortalecer conexões e ter suporte social diminuem quadros de ansiedade e depressão, além de reduzir índices de doenças cardiovasculares e mortalidade, comprova o médico, que afirma tentar sempre olhar para saúde mental com uma lupa mais ampla.