Durante a gravidez, pequenas escolhas do dia a dia podem ter mais impacto sobre a saúde do que parecem. Interromper longos períodos sentada, incluir movimentos leves na rotina e prestar atenção a mudanças no próprio corpo estão entre os cuidados que vêm ganhando espaço nas pesquisas sobre saúde materna.
Um estudo publicado em maio de 2026 no Jama acompanhou 470 gestantes e encontrou associação entre longos períodos de comportamento sedentário e maior risco de desfechos adversos na gravidez. Entre as participantes com menor tempo sedentário, a ocorrência foi de 19%. Nos grupos com maior tempo sentadas, passou de 41%.
A pesquisa considerou complicações como distúrbios hipertensivos da gravidez, diabetes gestacional, parto prematuro e nascimento de bebês pequenos para a idade gestacional. As participantes utilizaram sensores de movimento ao longo dos três trimestres, permitindo aos pesquisadores avaliar o tempo sedentário, a atividade física leve e o número de passos diários.
Menos tempo sentada, mais movimento no cotidiano
Os resultados também chamam a atenção porque não envolvem apenas exercícios de intensidade moderada ou alta. Entre as mulheres que acumularam mais atividade física leve ao longo do dia, o risco de desfechos adversos foi menor. O estudo amplia o debate no Dia da Gestante, celebrado em 15 de agosto.
No grupo com menor nível de atividade leve, 40,3% tiveram algum dos desfechos avaliados. Entre aquelas com maior nível, a proporção caiu para 21,1%. Um número maior de passos diários também esteve associado a menor ocorrência de complicações.
Isso não significa que exista uma quantidade de horas ou de passos capaz de garantir uma gestação sem intercorrências. Por se tratar de um estudo observacional, os pesquisadores não estabeleceram uma relação de causa e efeito. Os próprios autores defendem que estratégias para reduzir o comportamento sedentário e aumentar os movimentos de baixa intensidade sejam testadas em novos estudos.
Na prática, a pesquisa coloca no radar atitudes simples, como interromper períodos prolongados na mesma posição, ficar em pé e incorporar mais movimento à rotina, sempre respeitando as condições individuais e as orientações do profissional responsável pelo pré-natal.
Perdas urinárias ainda provocam vergonha
Outro aspecto da gravidez que costuma ficar longe das conversas é a incontinência urinária. Pesquisa encomendada pela Tena ao Okno Núcleo de Estudos mostra que 82% das entrevistadas relataram sentimentos negativos ao vivenciar o primeiro episódio de perda involuntária de urina durante a gestação.
Entre elas, 45% disseram ter sentido vergonha, 23% tiveram medo de que o escape representasse algum problema de saúde, 19% imaginaram que a bolsa pudesse ter rompido e 17% ficaram preocupadas com o bebê.
Os episódios também interferiram no cotidiano. Segundo o levantamento, 95% das entrevistadas mudaram algum comportamento depois das perdas urinárias. Antes de sair de casa, 53% passaram a ir ao banheiro preventivamente e 40% começaram a verificar se haveria sanitários disponíveis no destino.
Um dado chama especialmente a atenção: 45% disseram ter reduzido a quantidade de líquidos ingeridos por receio de novos escapes. A pesquisa ouviu gestantes com mais de 24 semanas, puérperas com filhos de até um ano e mulheres que desenvolveram perdas urinárias durante a gravidez.
Por que os escapes acontecem?
Durante a gestação, o crescimento do útero aumenta a pressão sobre a bexiga, enquanto as mudanças hormonais afetam músculos e ligamentos. O assoalho pélvico, conjunto de músculos responsável pela sustentação de órgãos como a bexiga e o útero, também passa por maior sobrecarga.
Por isso, os escapes podem aparecer principalmente em situações que aumentam a pressão abdominal, como tossir, espirrar, rir ou fazer algum esforço. Para a enfermeira Maria Alice Lelis, doutora em Ciências da Saúde pela Unifesp e consultora da Tena, a falta de informação ajuda a explicar o susto vivido por muitas mulheres quando o episódio acontece pela primeira vez.
“É comum que a mulher se assuste quando acontece pela primeira vez, especialmente se ela nunca recebeu informação sobre o assunto. Muitas pensam imediatamente que existe algum problema com a gestação ou com o bebê. Na maioria dos casos, porém, os escapes estão relacionados às mudanças naturais que acontecem no corpo durante esse período. Ainda assim, é importante conversar com o profissional que acompanha o pré-natal para receber uma avaliação adequada e orientação individualizada”, explica.
Exercícios para o fortalecimento do assoalho pélvico, mudanças de hábitos e acompanhamento profissional estão entre as estratégias que podem ajudar no controle dos sintomas, de acordo com cada caso. Produtos específicos para perdas urinárias, como absorventes e roupas íntimas desenvolvidos para essa finalidade, a exemplo dos oferecidos pela Tena, também podem proporcionar mais conforto durante o período de avaliação e tratamento.