Foram para Itália para educarem os três filhos de uma forma nada convencional. Num bosque, sem escola, com cavalos e outros animais, no meio da natureza. Mas um episódio com cogumelos venenosos que os obrigou a irem para o hospital atraiu a atenção das autoridades. E quatro anos depois de se instalarem nos arredores de Palmoli, na região de Abruzzo, Nathan Trevallion e Catherine Louise Birmingham ficaram sem os filhos. A retiradas das três crianças ao casal anglo-australiano pela justiça italiana está a agitar o país tendo chamado inclusive a atenção da primeira-ministra Giorgia Meloni, do vice-primeiro-ministro Matteo Salvini e do ministro da Justiça, Carlo Nordio.

No centro está um duelo entre a justiça e os denominados estilos de vida alternativos, que terá aqui colocado em causa a segurança e o bem-estar das crianças.

Desde 2021, que Utopia Rose (8 anos) e os gémeos Galorian e Bluebell (6 anos) eram educados na casa que os pais compraram em ruínas por 20 mil euros, a cerca de 10 quilómetros da localidade mais próxima.

A família tinha galinhas, burros e cavalos e plantava os seus próprios alimentos, dependendo sobretudo de fruta e vegetais, descreve a imprensa italiana. Abasteciam-se ainda de água num velho poço e geravam eletricidade a partir de energia solar. Os contactos com a sociedade ocorriam, ainda assim, de forma semanal, com viagens até à pequena cidade de San Salvo, perto do Mar Adriático.

Tudo mudou na sequência do episódio da intoxicação da família: as autoridades italianas lançaram-se ao terreno para perceber se as condições de segurança e bem-estar das crianças estariam asseguradas, chegando à conclusão que não. Com efeito, documentos judiciais divulgados entretanto pela imprensa atestaram que a habitação na qual viviam se encontrava “em ruínas, com péssimas condições de higiene e sem os serviços públicos necessários“.

Os procuradores italianos consideraram que as três crianças estavam a sofrer “violações graves e prejudiciais” dos seus direitos com uma vida naquelas circunstâncias e pediram que fossem retiradas aos pais.

De seguida, a juíza Cecilia Angrisano, do Tribunal de Família e Menores de L’Aquila, subscreveu as preocupações e ordenou a retirada, ao notar que a família “vive em condições precárias de habitação”, sem instalações sanitárias, e que a família “não tem interação social nem renda fixa”, além de que “as crianças não frequentam a escola”.

As crianças foram levadas na última quinta-feira pela polícia para uma instituição administrada pela igreja. Apesar de a mãe estar com elas algum tempo no dia, os pais têm acesso limitado às crianças, referiu o advogado Giovanni Angelucci, pelo que anunciou que iriam recorrer da decisão.

“Foi um choque enorme, muito rápido e inesperado. Fomos considerados um alvo porque escolhemos viver um tipo de vida diferente”, defendeu Nathan Trevallion, um antigo ‘chef’ oriundo de Bristol, no Reino Unido. Antes de se remeter na segunda-feira ao silêncio, depois de várias declarações a órgãos de comunicação social, Trevallion, de 51 anos, teceu duras críticas à justiça transalpina. “Vivemos fora do sistema… é disso que nos acusam. Estão a arruinar a vida de uma família feliz“, afirmou ao La Repubblica.

Perante o tribunal, o casal reiterou a crença nos benefícios da sua escolha de vida: “Mudámos conscientemente as nossas próprias vidas… para proporcionar aos nossos filhos uns pais que possam estar em casa com eles, comida, ar e água limpos e um ambiente que não só seja benéfico para o seu desenvolvimento cerebral e físico, mas, acima de tudo, uma ligação”.

O caso ganhou entretanto contornos políticos, com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a manifestar o seu “alarme” pela retirada das crianças. Nesse sentido, deu instruções ao ministro da Justiça, Carlo Nordio, para perceber se havia razões para averiguar esta decisão judicial.

Por sua vez, Matteo Salvini, parceiro de coligação e vice-primeiro-ministro, descreveu a decisão do tribunal italiano como um “sequestro”, considerando que a intervenção do tribunal era “indigna e preocupante”. O governante disse ainda ser “necessária uma reforma profunda e justa de um sistema judicial que, atualmente, não funciona”.

Já o titular da pasta da Justiça, Carlo Nordio, foi mais cauteloso sobre esta matéria e evitou alongar-se em comentários, admitindo apenas a convulsão que uma decisão destas tem no seio de uma família. “Arrancar uma criança da família é um ato doloroso. São necessárias investigações sérias, qualquer avaliação agora é prematura”, declarou, citado pelo jornal La Stampa.

A Associação Nacional de Magistrados italiana reagiu também à polémica e às críticas do poder político, apelando ao respeito pelas decisões da justiça. “A proteção dos menores vem em primeiro lugar. As instrumentalizações políticas estão em contraste com os direitos dos mais fracos”, defendeu o organismo sindical, sublinhando que a retirada das crianças se baseia em “avaliações técnicas e em elementos objetivos: segurança, condições sanitárias, acesso à socialização e obrigatoriedade escolar”.

Nos últimos dias, segundo avançou a agência ANSA, a juíza Cecilia Angrisano foi visada por inúmeros insultos na internet e até ameaças devido à decisão de retirar as crianças do cuidado dos pais.

O caso está a gerar enorme controvérsia em Itália acerca dos estilos de vida alternativos, com uma petição online de apoio à família a reunir mais de 143 mil assinaturas, segundo o jornal britânico The Independent.