Afinal, e contrariamente ao referido ao longo da tarde desta quinta-feira, o Ministério da Justiça contradiz os esclarecimentos dados no final de julho pelo ministro da Administração Interna, Luís Neves, relativamente aos custos para a destruição dos produtos químicos guardados no atrelado apreendido na Operação Pacoba.
Numa resposta oficial, por escrito, a perguntas feitas pelo Chega, o Ministério da Justiça afirmou que o valor pedido à PJ para destruir os bidões com substâncias químicas usadas na produção de droga foi de aproximadamente 150 mil euros (144.456,93 euros, já com IVA incluído). E, de facto, foi esse o valor apresentado pelo antigo diretor nacional da Polícia Judiciária numa conferência de imprensa. Mas, na noite desta quinta-feira, fonte do gabinete do Ministério da Justiça esclareceu, na sequência de perguntas feitas pelo Observador, que esse valor engloba “vários processos e não só a [Operação] Pacoba”.
No dia 29 de julho, na primeira conferência de imprensa em que deu explicações sobre as várias polémicas que o envolvem — e que só aumentaram desde então —, Luís Neves defendeu a não destruição dos produtos químicos do atrelado face ao custo que representava para a PJ. O atual ministro da Administração Interna argumentou ainda que a Judiciária não tinha “cabimentação” para fazer face ao valor exigido.
“Foi um puro ato de boa gestão. Pediam 150 mil euros para destruir este material. Nós não tínhamos cabimentação para o fazer e sabíamos que precisávamos de tempo para baixar o preço desta ação. A recolha deste material em qualquer armazém levar-nos-ia 3 a 4 mil euros por mês de renda e teríamos de esperar alguns meses, por causa da burocracia, para podermos ter acesso a outro armazém. Esta foi uma decisão que poupou ao Estado muito dinheiro e que nos permitiu ganhar tempo para encontrar uma solução adequada”, afirmou.
Essa “solução adequada”, recorde-se, levou a que o atrelado com bidões com produtos químicos usados para a produção de droga fosse levado, no verão do ano passado, desde o armazém da Marinha no Seixal para as instalações da empresa Construbarcelos, do empreiteiro João Carvalho — o empreiteiro escolhido pela PJ em 17 contratos públicos e que acabou a fazer também as obras da casa de Luís Neves num monte em Odemira.
A 3 de agosto, o grupo parlamentar do Chega enviou seis perguntas ao Ministério da Justiça “sobre o custo, financiamento e execução da ordem de destruição dos produtos químicos da ordem de destruição dos produtos químicos apreendidos na Operação Pacoba”. A pergunta 2 é a seguinte: “Que diligências foram realizadas pela Polícia Judiciária para executar o despacho de destruição e que razões determinaram o incumprimento do mesmo?” A resposta, assinada pela chefe de gabinete de Rita Alarcão Júdice, tem uma formulação abrangente: “Face ao volume anormal deste tipo de produtos apreendidos, em vários processos, e em quantidades sem paralelo até então, a Polícia Judiciária consultou uma empresa da especialidade (…).”
E complementa: “A empresa apresentou uma proposta que ascendia a 144.456,93 euros, IVA incluído, valor de que a Polícia Judiciária não dispunha no seu orçamento sem comprometer a sua atividade normal de serviço”.
Na sequência da divulgação das respostas do Ministério da Justiça, foi referido ao longo da tarde desta quinta-feira em inúmeras notícias que o governo estava a confirmar a versão de Luís Neves. Agora, o gabinete do Ministério da Justiça acabou por assumir em resposta ao Observador que os números apresentados no documento incluíam também bidões com químicos de outros processos e não apenas os produtos químicos que constavam dos 62 bidões apreendidos no caso Pacoba.
O Observador questionou ainda o gabinete da ministra da Justiça sobre quantos bidões com produtos químicos estavam, afinal, incluídos na proposta de 144.456,93 euros apresentada pela empresa Ambimed e quantos processos estavam associados no pedido de consulta realizado pela PJ. No entanto, fonte do gabinete de Rita Alarcão Júdice já não conseguiu clarificar essas informações até à publicação deste artigo.
[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]