Afinal pode ser só uma questão de hábito e não um vício: um estudo publicado esta quinta-feira mostra que muitos utilizadores de redes sociais como o Instagram ou o TikTok acreditam que estão viciados – mesmo quando não estão. São “boas notícias”, defendem os autores no estudo. A convicção de que estão viciados faz com que sintam que têm menos controlo para regrar o seu consumo de redes sociais, havendo também mais propensão para se culparem a si próprios ou à plataforma pelo uso excessivo.
O que distingue, então, um vício de um hábito? O vício está associado a um conjunto de sintomas, como a dificuldade em controlar o seu uso, sentir fortes desejos de a usar, ter sintomas de abstinência quando não se usa (como a irritabilidade, ansiedade ou aborrecimento) ou utilizar estas redes sociais mesmo sabendo das consequências negativas que podem ter. Já um hábito é um comportamento adquirido e que se repete com frequência (de forma consciente ou não), em que a pessoa sente que tem controlo e capacidade de parar.
“O uso frequente das redes sociais cria hábitos para, de forma automática, activar, fazer scroll, publicar e reagir”, lê-se no estudo publicado na Scientific Reports, feito com base nas respostas de 1200 adultos dos Estados Unidos. “Interpretar erradamente o uso excessivo de redes sociais como algo viciante pode desviar os utilizadores de estratégias eficazes que podem ser usadas para atenuar os hábitos de consumo excessivo”, defendem os autores.
Mesmo que não seja um vício, isso não significa que o uso excessivo das redes sociais não seja um problema. Em Portugal, a maioria dos jovens utiliza a Internet durante quatro horas ou mais por dia, em média, segundo o inquérito Comportamentos Aditivos aos 18 anos, do Instituto para os Comportamentos Adictivos e as Dependências (ICAD). A utilização intensiva da Internet e de redes sociais tem vindo a aumentar nos últimos anos e muitos jovens reconhecem que isso se traduz numa situação de mal-estar emocional ou na perda de rendimento na escola ou no trabalho.
É fascinante que tantos utilizadores do Instagram acreditem que estão viciados quando, segundo critérios clínicos, o risco de adicção é relativamente raro
Ian A. Anderson e Wendy Wood
Para combater esta utilização intensiva das redes sociais, os autores dão algumas dicas: desactivar as notificações das redes sociais, deixar o telemóvel longe da vista, usar uma escala de tons cinzentos em vez de cores no telemóvel, ou encontrar outras actividades que substituam o scroll contínuo, como ler ou usar outras aplicações de aprendizagem.
Num outro estudo publicado na revista científica JAMA esta semana, os cientistas indicam que o “uso problemático de redes sociais está associado a um pior resultado em termos de saúde mental”. Um detox de uma semana sem redes sociais fez com que um grupo de cerca de 300 participantes jovens relatassem sentir menos ansiedade, menos sintomas de depressão e menos insónia.
Risco de vício é “raro”
Para verificarem se a percepção de “vício” dos utilizadores batia certo com os sintomas clínicos de uma adição, os investigadores do estudo publicado nesta quinta-feira fizeram vários inquéritos. Numa primeira amostra de 380 utilizadores do Instagram nos EUA, os dois investigadores perceberam que 18% dos participantes diziam estar de alguma forma viciados no Instagram, mas apenas 2% apresentavam sintomas que indicavam um possível vício.
Mesmo os 46% que usavam o Instagram durante mais de uma hora por dia tinham apenas 5% de risco de estarem verdadeiramente viciados, segundo os seus sintomas clínicos. “É fascinante que tantos utilizadores do Instagram acreditem que estão viciados quando, segundo critérios clínicos, o risco de um vício é relativamente raro”, escrevem os autores no artigo.
Esta percepção não se cinge ao Instagram: quando analisaram o TikTok, os investigadores detectaram “resultados ainda mais extremos”. Numa amostra de estudantes universitários que usavam o TikTok, apenas 9% estavam em risco de vício, mas havia 59% a pensarem que estavam viciados.
Nas pessoas que corriam mesmo risco de estarem viciadas, havia dois sintomas mais presentes: a abstinência, uma sensação de inquietude se o uso da rede social estivesse proibido, e o impacto negativo no seu trabalho ou nos estudos.
Depois, numa amostra de 825 adultos norte-americanos, os investigadores tentaram esmiuçar se havia algum impacto negativo de rotular o uso do Instagram como um vício – e perceberam que levava a sentimentos de culpa ou de falta de controlo.
Os autores Ian A. Anderson (do Instituto de Tecnologia da Califórnia) e Wendy Wood (da Universidade do Sul da Califórnia) perceberam que, mesmo nos meios de comunicação social, era bem mais comum optar-se pela expressão “vício das redes sociais” e não tanto por “hábito das redes sociais”: entre Novembro de 2021 e Novembro de 2024, encontraram 4383 artigos da imprensa norte-americana em que era usada a palavra “vício” e só 50 a mencionarem a palavra “hábito”. Isto também pode contribuir para a forma como os utilizadores encaram o seu consumo de redes sociais.