O plano de Inês para o dia 25 de Dezembro não será diferente do de muitas outras pessoas. Planeia estar no sofá a ver o segundo volume da última temporada de Stranger Things, que se estreia nesse mesmo dia. A companhia serão os seus gatos – e essa parte, sim, pode ser diferente da generalidade das pessoas, que estarão em família. Mas não nos apressemos a achar que esta é uma história triste.

Inês foi convidada por amigos e tinha a opção de passar a véspera e o dia de Natal com os pais, mas preferiu ficar sozinha. A ausência das duas filhas, que de dois em dois anos celebram as festas com o pai, faz com que o dia “não faça tanto sentido”.

“As pessoas cada vez têm mais consciência de que o Natal pode ser todos os dias, e nós aproveitamos sempre para cultivar as nossas relações. O Natal é só mais um dia no meu ano”, diz. É por isso que, pela terceira vez, escolhe ficar no seu sofá e criar as suas próprias tradições, enquanto o pinheiro está “especado” na entrada de casa.

O Natal pode ter tanto de feliz como de desafiador. É alegria e tempo com a família, boa comida e presentes. Mas pode também trazer memórias infelizes, pressão e ansiedade. A Ordem dos Psicólogos refere que alguns estudos mostram que mais de 60% das pessoas sentem stress e cansaço durante o Natal: a preocupação com as prendas, o encargo financeiro ou a logística são alguns dos factores que contribuem para este sentimento.

Para algumas pessoas, isso pode ser um motivo para se afastarem e preferirem tempo sozinhas. Para outras, o Natal simplesmente não é assim tão importante. “Já tenho quase 44 anos, não sei se é impressão minha, mas cada vez me apercebo mais de que as pessoas já não dão aquela importância ao Natal”, afiança Inês.


Um “trabalho de desapego”

Para Thalita Sbragio, de 36 anos, o Natal sem companhia vai ser uma estreia. Em Portugal há sete anos, nos últimos anos tinha escolhido viajar para o Brasil para estar com a família. Nos anos em que não foi, celebrou com amigos, que sempre se prontificaram a recebê-la nas suas famílias. “Já passei Natais muito inusitados. Até costumo dizer que prefiro passar em Portugal, porque são tantas opções e eu acabo por passar sempre momentos incríveis”, conta.

Mas, este ano, decidiu um plano diferente: vai para a Escócia, sozinha. “É um sítio que remete muito para o Natal, e eu gosto de coisas bem temáticas, por isso achei que ia ser um sítio fixe para conhecer e passar o Natal.”

O facto de já estar habituada a viajar sozinha faz com que qualquer receio que pudesse sentir fosse substituído por entusiasmo: “Estou com a expectativa de que vai ser bem interessante. Acho que não me vou sentir assim tão sozinha, mas vai ser uma surpresa.”

Apesar de já ter uma lista de coisas para fazer durante a viagem, ainda não escolheu o programa para dia 24 ou 25, nem o sítio onde vai jantar. Vai esperar por pisar solo escocês para perceber onde se poderá sentir à vontade. Uma coisa já sabe: a noite será num hotel que a mãe insistiu em oferecer, para que estivesse mais confortável.

Inês vai, à semelhança do que fez em outros anos, comprar coisas que gosta muito de comer, “procurar as melhores padarias e coisas boas, provavelmente caminhar até à praia”. Não vai haver bacalhau – o que não é uma novidade, já que é vegetariana.


O essencial é mesmo “o silêncio”: “Quero aproveitar esta altura para estar só comigo, com as minhas coisas, da forma que quero estar.” Do lado da família, não encontrou resistência. “Houve alturas em que já foram muito mais rígidos em relação a estas questões, mas depois acabaram por se adaptar.”

A mãe de Thalita, que já “está habituada” ao lado aventureiro da filha, também não ofereceu resistência e apoiou a decisão (com a condição de passar a noite num sítio confortável). Os amigos ainda tentaram demovê-la, mas não resultou: “Quero aproveitar os dias livres para conhecer um sítio novo.”

“Isto é um trabalho de desapego”, conclui Inês. “Da primeira vez isto foi muito custoso, mas agora é tranquilo e relaxante. Estou a criar as minhas próprias memórias – e isto não invalida nada do que eu tenho: uma vida muito preenchida.”