“Desde idade precoce que Hugo manifesta comportamentos difíceis de controlar, sendo descrito como rebelde e irrequieto, tendo a família, após as primeiras queixas em contexto escolar, diligenciado por consulta de psicologia, no setor privado. Neste contexto, em relatório de avaliação psicológica datado de 2011 identifica-se grave défice cognitivo de caráter permanente” sugerindo-se avaliação em ensino especial e acompanhamento psicoterapêutico. Apesar do diagnóstico, a estratégia educativa preferencial dos progenitores era o recurso a castigos físicos”, refere o acórdão da segunda condenação de Hugo, ambas por crimes de roubo. Se na primeira ficou em pena suspensa, na segunda foi condenado a quatro anos e dez meses de prisão — em nenhum momento, nas duas condenações, era mencionada uma perturbação esquizofrénica, que só seria diagnosticada anos mais tarde.
Aos olhos do tribunal, os avós “demonstraram algumas fragilidades ao nível da imposição de normas e regras”, que se traduziram numa “postura de permissividade e desculpabilização que parece ter favorecido o aumento de comportamentos desajustados, tanto em contexto familiar, com atitudes agressivas a nível físico e verbal e com fugas de casa, como no contexto escolar com absentismo e situações de indisciplina”.
Mas os avós contam ao Observador que tiveram sempre o bem de Hugo como objetivo e que por isso decidiram colocar o jovem na escola, onde se aperceberam do consumo problemático do neto que tinha ainda menos de 16 anos. “Logo no segundo dia de escola a diretora chamou-me e disse: o seu neto chegou há dois dias aqui à escola e vou mostrar-lhe onde está”. Seguiram os dois para a janela do gabinete da diretora, que dava para a rua. “Ela disse: ‘Aquele rapaz ali [a falar com o Hugo] é vendedor de droga’. Eu entrei em pânico”.
Rubi confrontou o neto e, decidido a controlá-lo mais, chegou a pedir explicações a um rapaz que estava a consumir droga perto da sua casa. “Tive que perguntar lá no jardim onde a gente mora, o que era a droga. Perguntei a um rapaz que lá estava se ele me podia explicar, porque o meu neto não me dizia. Eu queria saber o que era para estar vigilante”.
Contudo, nada parecia resultar e o casal viu-se encurralado. Depois de ter sido acompanhado por uma pedopsiquiatra no Hospital Garcia de Orta, onde começou a realizar terapêutica medicamentosa, não se notaram efeitos. O consumo manteve-se e o percurso escolar era marcado pelas dificuldades de aproveitamento e por comportamentos problemáticos.
Desesperados, inscreveram o jovem numa escola profissional. Rubi leva as mãos à cabeça enquanto recorda essa decisão. “O que é que eu fui fazer… aquela era a escola da droga”. O avô lembra que o neto “começou por ir sozinho para a escola”, mas depois começou a aperceber-se que ele não ia às aulas e passou a levá-lo lá. “Até pedi ao porteiro — dei-lhe o meu número — para me avisar se houvesse qualquer coisa [com o Hugo]. De duas em duas horas ele estava a ligar-me a dizer ‘o seu neto já fugiu’”.
Assim, Hugo acabou por ser alvo de uma intervenção no âmbito de processo de promoção e proteção pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens do Seixal. Mas, mais uma vez, a atitude do menor deitou tudo a perder e a alternativa acabou por ser a integração numa comunidade terapêutica. “Era a única hipótese para tirá-lo da rua”, desabafa o avô que sabe, anos depois, que nem aquela alternativa resultou.
“Foi para o Pinhal Novo”, para a Comunidade Terapêutica do Centro Jovem Tejo, onde esteve entre fevereiro e junho de 2017, antes de seguir para outra comunidade terapêutica mais longínqua, no Marco de Canaveses. Novamente, durou menos de um ano na Associação ART.
“Ele ficava lá, mas volta e meia fugia. Uma vez estava em casa e bateram-me à porta, de madrugada. Abri e disse ‘o que é isto, Hugo? O que foste fazer?’. Entrei em pânico, disse-lhe: ‘Vai tomar um banho, come uma sandes que eu vou lá levar-te’”. Fez a viagem entre a freguesia da Amora, onde ainda vive, e o Marco de Canaveses nessa mesma noite, para levar o neto à associação. Qual a justificação para a fuga? “Se calhar tinha saudades da gente, queria ver a avó e o avô… ou então queria ir à procura de uma ganza cá fora, que é o mais certo”, admite Rubi.
Como dessa vez acabou por não ser apanhado, Hugo ganhou mais tempo na comunidade, mas seria definitivamente expulso em abril de 2018, depois de ter estado uma semana em fuga.
Novamente a viver com os avós na Margem Sul, integrou um curso de formação profissional na área da animação sociocultural (que não concluiu) e continuou a consumir droga. O ciclo repetiu-se quase interminavelmente para os avós: nova recaída no consumo, nova procura por ajuda, nova melhoria (desta vez com medicamentos) e finalmente uma evolução positiva graças ao acompanhamento em consulta de psicologia e psiquiatria na Equipa de Tratamento Especializado de Almada da ARSLVT (Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo). Os aparentes bons resultados significaram o fim desta intervenção no âmbito do “processo de promoção e proteção”.