Foto: Harvard Catalyst/Harvard University

Roberto Olivardia Professor na Faculdade de Medicina de Harvard e coautor do livro ‘O Complexo de Adônis’

Professor na Faculdade de Medicina de Harvard, Roberto Olivardia é coautor do célebre livro O Complexo de Adônis: a Obsessão Masculina pelo Corpo, que descreveu de forma inédita os distúrbios de imagem corporal, a obsessão pela musculatura e os transtornos alimentares em homens. Mais de duas décadas após o lançamento da obra, a temática ganha contornos mais preocupantes com o surgimento da subcultura digital do looksmaxxing, como ficou conhecida a busca pela maximização da aparência.

“A questão está definitivamente pior com as redes sociais, não há a menor dúvida”, relata Olivardia ao Pulsa. “Comecei a receber no consultório pacientes mais jovens do que jamais atendi antes.”

O termo Complexo de Adônis foi usado no livro para analisar a dismorfia muscular, ou vigorexia, transtorno psicológico caracterizado por uma insatisfação doentia com o próprio corpo. Olivardia alerta que agora o risco escalou de forma a ameaçar a integridade física dos pacientes. “Com o looksmaxxing, em particular, a situação foi muito além, partindo para práticas muito perigosas e puramente prejudiciais”, acredita o autor. “Desde usar um pequeno martelo na mandíbula até cirurgias plásticas extremamente radicais e o uso de esteroides anabolizantes.”

Para o especialista, a questão é indissociável do fenômeno da machosfera, subcultura que preza pela superioridade masculina e se popularizou na internet com o crescimento das redes sociais. “O maior problema com isso e com os pacientes que atendo é essa ilusão de que, se alguém tiver uma determinada aparência, todas as coisas lhe serão concedidas: que terão mulheres ou homens atraídos por eles, serão totalmente respeitados e estarão livres de qualquer tipo de rejeição ou crítica.”

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Qual é a origem desse fenômeno conhecido como looksmaxxing?

O looksmaxxing é, de certa forma, um nível exacerbado do que temos visto ao longo de duas décadas, que é essa pressão crescente sobre como as pessoas devem parecer. Eu me especializei em trabalhar com meninos e homens nos últimos 30 anos. Começamos a ver essa pressão em revistas fitness, estrelas de cinema e publicidade. O surgimento das redes sociais, por outro lado, jogou gasolina nessa fogueira. Hoje, vemos pessoas com acesso, 24 horas por dia, a indivíduos que estão engajados em modificações extremas da imagem corporal, enviando muitas mensagens prejudiciais sobre essa espécie de responsabilidade ou obrigação de estar na sua melhor forma.

As mulheres também enfrentam pressão estética, mas por que o looksmaxxing é direcionado ao gênero masculino?

Isso começou a mudar entre o fim dos anos 1970 e início dos 1980, quando houve mais igualdade de gênero. E também uma espécie de reação entre os homens para, de alguma forma, maximizar suas próprias formas de masculinidade. Como a masculinidade sempre esteve atrelada aos músculos e ao corpo, não foi coincidência que tenhamos visto uma escalada no uso de esteroides e o aumento dos transtornos alimentares nesse grupo, algo que realmente não víamos em homens antes da década de 1980 ou que estava começando a aumentar.

Existe um elemento político no looksmaxxing que é um pouco diferente do que víamos antes porque muitos dos influenciadores que promovem isso trazem um forte tom misógino. São ideias como: ‘Você precisa ser homem e, se tiver o tipo de corpo que deseja, não será rejeitado pelas mulheres’ ou ‘Deus me livre uma mulher tomar a decisão de não ficar com você, você não pode deixar isso acontecer. Você precisa assumir o controle’. A mensagem agora, que é muito diferente da que víamos 20 anos atrás, é algo na linha: ‘Não dê às mulheres nem sequer a capacidade de tomar uma decisão. Se você for perfeito, se for o espécime perfeito, elas simplesmente ficarão hipnotizadas e seguirão cada passo seu’.

Professor de Harvard alerta sobre o aumento de distúrbios de imagem corporal em homens devido à pressão das redes sociais e subculturas digitais Foto: Elena/Adobe Stock

Podemos associar o movimento aos influenciadores digitais que defendem ideais radicais de masculinidade, como Clavicular e os irmãos Andrew e Tristan Tate?

Com certeza, esses são os pesos-pesados. O nome do Clavicular é muito citado no meu consultório. Uma das perguntas que faço agora para os novos pacientes é quem eles seguem nas redes sociais. E costumam ser os mesmos nomes. O Clavicular é um exemplo clássico por se tratar de um jovem que passou por cirurgias estéticas significativas, é extremamente crítico e, francamente, sexista na forma como fala. Ao mesmo tempo, parece não ter relacionamentos. Então, é quase como se pudéssemos pensar: ‘Bem, o que isso está trazendo (de benefícios na vida dele) no longo prazo?’ Exceto pelo fato de que, claramente, está permitindo 15 minutos de fama. Você tem atenção, mas isso está realmente trazendo amor, conexão? Porque, no fundo, é isso que todos nós desejamos: amor, aceitação e conexão. Muitos desses influenciadores estão lutando contra os seus próprios demônios. Andrew Tate, pelo que foi acusado (ele e o irmão, Tristan, enfrentam acusações de estupro, tráfico humano e exploração sexual), obviamente não é alguém que eu gostaria que fosse um modelo de comportamento para o meu filho. Mas essas são as pessoas que estão propagando esse tipo de conselho.

Qual a origem e como explicar práticas como bonesmashing (martelar os ossos da mandíbula para ressaltá-la) e mewing (exercícios para aumentar a definição facial), além da busca pelos chamados “olhos de caçador” (hunter eyes)?

O tema comum é a ideia de tentar acentuar ou exagerar o que é culturalmente visto como traço masculino: mandíbula marcada, músculos grandes, pênis grande, tronco largo e cabelo farto. Todas essas coisas. Algumas práticas eu, honestamente, nem sei de onde as pessoas tiram. Parte disso tem a ver com influenciadores. Às vezes, quem tem a ideia mais maluca ou absurda acaba atraindo mais atenção.

Anos atrás, tive um paciente que batia com um martelo na mandíbula para esculpi-la. O consenso diagnóstico era de que ele sofria de transtorno dismórfico corporal, mas de uma forma quase psicótica. Atualmente, quando algo se torna mais comum, nem sempre é esse o caso. Há coisas que meus pacientes fazem e eu penso: ‘Isso nem sequer produz, anatomicamente, o efeito que eles acham que está produzindo’. Hoje em dia, há uma infinidade de produtos disponíveis e as pessoas conseguem encomendá-los facilmente. Já trabalhei com meninos de 11 ou 12 anos que usam esteroides anabolizantes e se envolvem em práticas que lhes causam danos.

Os grupos virtuais em redes como Discord, WhatsApp e Telegram têm vocabulário específico. A pressão estética dos anos 2000 evoluiu para a comunidade de looksmaxxing que existe hoje? Qual é a conexão?

Quando você vê esse tipo de vocabulário dentro de comunidades, geralmente é uma tentativa de criar um sentimento de pertencimento. E isso também pode funcionar de formas positivas, nem sempre é negativo por si só. Pessoas em um time de atletismo, por exemplo, podem ter certas palavras-código. Isso cria um senso de comunidade de modo que as pessoas que estão de fora simplesmente não entendem, porque agora eles têm sua própria linguagem. É quase como uma minicultura, e toda cultura tem sua própria língua, práticas e jeito de fazer as coisas. Quando você tem esses mundos online, fica mais difícil de entrar.

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Não estou atualizado sobre todos eles, mas tive de aprender um pouco desse vocabulário. E isso não é por acaso. Faz parte daquela sensação de “nós sabemos do que estamos falando”, o que às vezes é muito parecido com as culturas de fisiculturismo, onde existem certas palavras sobre esteroides e afins. Se alguém não conhece de verdade, não faz parte da comunidade. É normal todo mundo querer se sentir parte de alguma comunidade. Penso que os pacientes com quem trabalho gravitam em torno disso porque estão realmente buscando conexão. E eu digo a eles que não há nada de errado com esse valor. O valor da conexão é humano. No entanto, o caminho pelo qual você está tentando chegar lá não é realmente o que vai propiciar o que você precisa.

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Há uma prática específica em que integrantes desses grupos virtuais postam uma selfie e pedem para os demais darem uma nota a eles. Essas avaliações podem causar danos psicológicos?

Isso é terrível. É terrível porque, para começar, o simples fato de postar algo e basicamente colocar o poder nas mãos de outra pessoa para dizer se você tem valor vai muito além de um ‘estou bonito aqui?’. A mensagem por trás disso é: ‘Eu sou uma pessoa de valor?’.

Tenho pacientes que já postaram nesses fóruns e eu li o que as pessoas dizem. Alguns comentários são simplesmente brutais. Alguns são de pessoas bem-intencionadas, mas que dizem coisas como: ‘Ah, ficou legal. Mas você não vai conseguir um encontro com essa mandíbula. Então, eu recomendaria um implante de queixo’. Isso para um jovem de 17 anos. É como se as pessoas que buscam isso não estivessem apenas perguntando, em um nível mais profundo, ‘Como eu estou?’. O que elas estão realmente perguntando é o quanto são dignas de valor. Essa é a parte realmente triste, porque há muitas pessoas que lutam com a autoestima geral e elas supercompensam tentando achar que uma aparência perfeita vai compensar isso. E não vai.

Você atende pacientes bem jovens. Como eles e os pais podem lidar com isso? Existe uma saída para esse problema?

Para os pais, acho que o primeiro passo, e o mais importante, é perguntar aos filhos quem eles estão seguindo e dar uma olhada no conteúdo desses influenciadores. Antes de criticar ou dizer ‘meu Deus, isso é horrível, por que você está ouvindo isso?’, o ideal é se aproximar e pedir que o filho explique por que aquela pessoa chama a atenção dele. Porque a realidade é que, se eles se sentem conectados ou ouvem aquela mensagem, eles sentem que fazem parte de uma comunidade. Se você simplesmente detonar tudo isso, eles vão pensar que você está detonando eles também.

Se o seu filho segue o Andrew Tate, por exemplo, a última coisa que você quer fazer é perguntar: ‘Me conta o que você gosta no Andrew Tate’. Mas é importante entender qual é o atrativo. Só porque seu filho adolescente segue o Andrew Tate não significa que ele concorde com tudo o que ele diz. Ao mesmo tempo, o importante é descobrir onde está o interesse e se esse mesmo interesse pode ser suprido de uma forma mais saudável. Porque, mesmo que ele não defenda toda aquela filosofia, quando você ouve a mesma coisa repetidamente, é muito fácil que aquilo acabe se normalizando. E depois, claro, há a necessidade de limitar o uso das redes sociais.

Como é possível quebrar esse ciclo?

Com os jovens que eu atendo, funciona da mesma forma. Eu pergunto: ‘Quais valores você está realmente buscando e como encontrá-los?’. Mas o que eu percebo que mais ajuda os jovens, curiosamente, é quando eles sentem que estão sendo manipulados de alguma forma. Não pelos críticos, ou seja, não sendo manipulados por pessoas como eu, que dizem ‘ah, não ouça isso’. Mas quando eles percebem que alguém como o Clavicular diz coisas absurdas só para chamar a atenção, ganhar curtidas e faturar muito dinheiro com isso, e que eles fazem parte dessa engrenagem. Aí os jovens caem na real. Eles percebem que algumas dessas pessoas talvez não acreditem nem na metade do que dizem ou que simplesmente não se importam com os outros. Isso traz uma perspectiva diferente, que é algo como: ‘Tá, o que eu estou seguindo de verdade?’.

Não tem nada de errado em querer ter uma boa aparência. Mas é preciso ter equilíbrio e não fazer nada que seja prejudicial. A única certeza que temos é que a nossa aparência vai mudar. Todos nós estaremos diferentes daqui a 20 anos. Não significa que estaremos feios, mas estaremos diferentes. Já o nosso senso de humor, nossa inteligência e a forma como nos relacionamos com as pessoas permanecem praticamente os mesmos ao longo da vida. Então, se focarmos nossa energia nessas coisas, teremos mais controle e mais certeza sobre o futuro. Isso não significa que não podemos comer bem, nos exercitar e nos sentir bem com o nosso corpo, mas isso é apenas uma parte de um conjunto maior.

Reportagem: Jhulia Caballero, Sarah Cardoso, Nathalia Tetzner, Maria Raquel Brito e Rodrigo Matana

Expediente

4º Curso Estadão de Jornalismo de Saúde

Repórteres: Adan Neto, Beatriz Garcia, Bruno Felix, Enrico Souto, Fabrícia Braga, Francielly Barbosa, Gabriella Braz, Gilberto Barbosa, Giovana Abrantes, Giovanna Massaro, Jhulia Caballero, João Marcello Santos, Lóren Souza, Lucas Allabi, Maria Raquel Brito, Nathalia Tetzner, Paloma Xavier, Rodrigo Matana, Sarah Cardoso Nogueira e Vitória Floro | Coordenação e edição: Carla Miranda e Ítalo Rômany | Produção: Eliane Damaceno e Victor Hugo Mendes