Embora tenha ganhado notoriedade recentemente nas redes sociais, o lipedema não é uma doença nova. Foi descrita inicialmente na década de 1940, mas apenas nos últimos anos tem sido mais amplamente investigada. Trata-se de uma doença crônica que acomete o tecido adiposo subcutâneo, aquele localizado abaixo da pele, principalmente dos membros inferiores. Ela causa um aumento desproporcional de gordura em quadris, coxas e pernas, e em ambos os lados. Em alguns casos, pode acometer também os braços.
A prevalência da doença ainda é desconhecida. O consenso internacional publicado em 2026 mostra bem o tamanho dessa incerteza: as estimativas existentes variam de menos de 1% a aproximadamente 12% entre as mulheres adultas.
Uma de suas características mais marcantes é a desproporção visual da área afetada em relação ao restante do corpo. Uma mulher pode apresentar tronco magro, com cintura fina e, ao mesmo tempo, pernas e quadris desproporcionalmente maiores. Outra peculiaridade é que pés e mãos geralmente são poupados. Em alguns casos mais avançados, existe uma espécie de “garroteamento” nas extremidades. É como se tivessem amarrado os tornozelos ou os punhos, fazendo com que pés e mãos não sejam acometidos, enquanto pernas ou braços apresentam aumento significativo do tecido adiposo.
Descrito nos anos 1940, o lipedema afeta o tecido adiposo subcutâneo, causando aumento desproporcional de gordura em membros inferiores e, em alguns casos, nos braços Foto: Tatiana/Adobe Stock/Gerado com IA
A doença envolve também sintomas. Pode haver sensibilidade aumentada, dor, sensação de peso e facilidade para desenvolver hematomas. Em quadros mais avançados, podem surgir alterações do tecido, edema e fibrose.
É importante ressaltar que lipedema é diferente de obesidade e celulite. Existem algumas características semelhantes entre essas condições, mas são processos distintos. O lipedema não está relacionado com doenças crônicas comumente relacionadas ao excesso de gordura corporal, como resistência à insulina, diabetes e dislipidemias, por exemplo. Vale lembrar ainda que lipedema e linfedema são condições diferentes, embora possam coexistir. No linfedema, há alteração do sistema linfático, com acúmulo de líquido nos tecidos.
Quais as causas do lipedema e como é o diagnóstico?
Aqui começam as muitas perguntas ainda sem resposta. Sabemos que a doença acomete primariamente mulheres e que períodos de grandes alterações hormonais – principalmente puberdade, gravidez e menopausa – são frequentemente associados ao início ou à piora dos sintomas. Isso levou à hipótese de que os hormônios sexuais, especialmente o estrogênio, possam participar do desenvolvimento da doença, embora os mecanismos ainda não estejam esclarecidos. Além disso, parece existir predisposição familiar em uma parcela das pacientes, sugerindo participação genética.
Existem ainda hipóteses envolvendo inflamação, microbiota e permeabilidade intestinal, mas os estudos são iniciais e ainda não sabemos exatamente qual é o papel desses fatores, nem se essas alterações participam do início da doença ou aparecem durante sua progressão.
O diagnóstico é clínico, feito a partir da história da paciente e do exame físico. Exames de imagem, como ultrassom e ressonância magnética, podem ser utilizados em determinadas situações, principalmente para complementar a avaliação ou excluir outras condições. Atualmente não existe um exame específico que, sozinho, diagnostique lipedema.
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Qual o papel da alimentação no lipedema?
Chegamos a uma das áreas em que existe maior distância entre o que circula nas redes sociais e o que realmente sabemos.
Quem procura informações sobre lipedema encontra rapidamente protocolos elaborados e cheios de suplementos. Uma de minhas pacientes foi a uma clínica especializada no tema e recebeu a orientação de um tratamento de quase 100 mil reais, sendo cerca de 10 mil apenas em testes alimentares e suplementos.
A quantidade de ciência por trás dessas promessas é muito, mas muito menor do que você pode imaginar. Uma revisão sistemática brasileira publicada em 2025 encontrou apenas nove estudos que avaliaram intervenções alimentares em mulheres diagnosticadas com lipedema. Isso mesmo: nove. Somados, esses estudos incluíram apenas 269 mulheres!
Para uma doença que potencialmente atinge milhões de mulheres, é uma amostra extremamente pequena para construirmos recomendações específicas, definitivas e, especialmente, caras.
O que os estudos sobre dieta e lipedema mostram
Boa parte das pesquisas avaliou padrões alimentares com algum grau de restrição de carboidratos. Entre eles estão dieta low-carb, cetogênica e algumas variações da dieta mediterrânea. Essas estratégias também aparecem entre as possibilidades nutricionais discutidas pelo consenso internacional publicado em 2026.
De maneira geral, os estudos encontraram redução de peso e de gordura corporal. Alguns também observaram melhora da dor, das medidas corporais e da qualidade de vida.
Mas, além de poucos, os estudos são tímidos, apresentam curto tempo de acompanhamento e importantes limitações metodológicas. A revisão sistemática mais recente classificou o risco de viés da maioria deles como moderado a alto. Por isso, ainda não sabemos qual dieta é superior para mulheres com lipedema nem qual seria o grau ideal de restrição de carboidratos.
Na prática clínica, dietas com restrição moderada de carboidratos ou até mesmo cetogênicas podem ser consideradas em determinados casos, assim como um padrão alimentar mediterrâneo. A escolha precisa levar em conta o quadro clínico, os objetivos e, principalmente, a capacidade de manter aquela alimentação no longo prazo.
Também significa começar pelo básico bem feito: adequação energética, quantidade suficiente de proteínas, frutas, verduras, legumes, leguminosas, boas fontes de gordura, fibras e redução do consumo excessivo de alimentos ultraprocessados.
Além disso, deixo uma reflexão: doenças crônicas precisam de tratamentos que possam ser mantidos cronicamente. Entender o que cada pessoa consegue incorporar à própria vida no longo prazo é parte fundamental da decisão.
Mas, afinal, como é o tratamento?
O tratamento do lipedema depende da intensidade dos sintomas, do comprometimento funcional, da presença de obesidade associada e de outras alterações vasculares ou linfáticas. O que dá para dizer é que a atividade física é essencial nesse cenário, sendo que exercícios aquáticos podem ser particularmente vantajosos – inclusive para pessoas com maior sensibilidade ou dor. Terapias compressivas e fisioterapia também podem fazer parte do tratamento, de acordo com a necessidade individual.
Em alguns casos mais severos, a lipoaspiração pode ser indicada, desde que realizada por uma equipe com experiência no tratamento da doença e com técnicas adequadas para preservar as estruturas linfáticas.
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Vulnerabilidade emocional: um aspecto importante
Qualquer doença já carrega consigo uma carga emocional grande. Uma doença visível, relacionada a aspectos estéticos, em uma época ditada por uma magreza que chega a ser doentia, traz ainda mais complicações.
Um pequeno estudo publicado em 2026 avaliou mulheres com lipedema por meio de um questionário online e encontrou um dado preocupante: cerca de 70% apresentaram rastreamento positivo para risco de comportamentos alimentares transtornados.
É um resultado que precisa ser interpretado com cautela. O estudo avaliou apenas 47 mulheres e utilizou um instrumento de rastreamento, que não faz diagnóstico de transtorno alimentar. Ainda assim, acende um alerta.
Na tentativa de melhorar a composição corporal, essas mulheres podem acabar entrando em ciclos cada vez mais intensos de restrição alimentar, dietas, suplementos e procedimentos, colocando sua saúde física e mental em risco.
Talvez a principal mensagem para quem acabou de receber o diagnóstico seja que o lipedema é uma doença cujo conhecimento científico ainda está engatinhando, com mais dúvidas do que respostas. Por isso, muito cuidado com protocolos radicais – e caríssimos – que oferecem soluções definitivas. Eles tendem a beneficiar uma pessoa só – e infelizmente não é o paciente.